Eu olhei pra baixo, onde nossas mãos deveriam estar entrelaçadas, como sempre. Não foi uma surpresa constatar que as minhas estavam ocupadas contando meus dedos - 1,2,3,4,5. 1,2,3,4,5. 1,2,3,4,5 - e as dela estavam digitando alguma coisa no celular, em uma conversa com alguém que eu não conhecia e que provavelmente nunca conheceria. A estação estava calma e iluminada, o horário do rush já tinha acabado a tempos. Eramos só mais duas pessoas voltando para casa depois de uma aula cansativa. O silêncio pesava mais do que eu conseguia suportar, portanto comentei sobre algum show que estava com vontade de assistir  ou sobre alguma coisa que alguém tinha dito - a tempos não conversávamos sobre nossas ideias e percepções do mundo - não me lembro ao certo. Ela riu automaticamente e disse que ia ser legal. Todos os dias seriam legais, e todos os dias nós faríamos algo de emocionante e todos as horas nós iríamos aproveitar a vida como supostamente deveríamos. Mas por quê então esses momentos nunca chegavam? 

O trem foi se aproximando, e eu respirei aliviada, esquecendo momentaneamente do nosso trato. Finalmente eu poderia ir pra casa e chorar, com saudades de quando eu sabia o que eu sentia e era amor (!) e de quando tudo ficaria bem desde que nós continuássemos existindo em algum ponto do mapa perto o suficiente para declarar aquele amor cara a cara, corpo a corpo. Me virei para me despedir (mas não tão rapidamente, eu precisava esperar as portas do metrô começarem a se fechar para só então beijar sua bochecha rapidamente e gritar um "tchau" amigável e me virar novamente, ocupada demais procurando um lugar pra sentar: simplesmente não sobraria nenhum segundo para observar se ela hesitou ao gritar "tchau" de volta) e lá estavam eles, os olhos - cinzentos, na época - que não deixavam escapar sequer uma palavra de carinho. Olhos esses que antes me fitavam com curiosidade e divertimento, azuis, com um brilho próprio feliz, causado pela sensação de também saber o que estava sentindo e gostar daquilo. O brilho de ambos os olhares tinha sumido antes de tudo acabar, e nós duas sabíamos disso. 

Nós duas também sabíamos que a partir do momento em que violássemos o trato, seria como uma tesoura invisível e cruel cortando o último fiapo de cumplicidade que existia e que foi outrora uma manta grossa e quente. Toda remendada de riso e choro, tardes quentes no interior ou noites frias na Avenida Paulista, filmes, pipoca ou luzes brilhantes e shots de tequila,  abraços dados de mau grado e apertos gentis de mãos assegurando de que estávamos ali, para o que der e vier. Aquela manta já tinha sido cortada (com a maior gama de utensílios que possam passar pela sua cabeça) e costurada tantas vezes que com o tempo foi enfraquecendo e soltando fios puídos pelo caminho, pequenas e fodidas evidências de que algo tinha chegado ao fim. 

Não consigo me lembrar exatamente de quanto tínhamos inventado o trato, selado com um beijo confortável e conhecido. Provavelmente foi perto da época em que nós não conseguíamos ficar sem falar "eu te amo" por mais de 24h, e todo momento longe era um momento perdido. Ao criar - e honrar - o trato, ganhávamos de forma justa uma aposta com o universo, que nos concedia mais alguns minutos de contato precioso como recompensa. O caso é que eu sempre ia para um lado da cidade e ela para o outro, pegando a mesma linha de metrô porém com direções diferentes. Para apaziguar a sensação de ser abandonada na plataforma, sozinha e tendo que se contentar com caretas e beijos lançados através da janela, combinamos que só iríamos nos separar quando os dois trens (o meu indo pra cá e o dela para lá) chegassem ao mesmo momento. Seria dessa maneira que o universo nos avisaria que já tinha sido generoso demais naquele dia e que já era hora de lembrar que existiam outras pessoas contando com o nosso amor (eu ainda não sabia que uma dessas pessoas seria eu mesma). Quebramos o trato poucas vezes, geralmente antecedidas de ligações urgentes dos nossos pais aflitos. Quando isso acontecia, eu ficava com medo da forma com que o universo nos puniria - será que alguém rasgaria nossa manta, nosso esconderijo? Será que alguma face feia da minha personalidade apareceria? Será que eu seria fraca demais para costurar, com os dedos já calejados, nossa cumplicidade? Acho que meus medos eram justificados, no fim. 

Decidi rapidamente, de forma racional: eu quebraria o trato. Afinal, era só uma questão de tempo até aquele fiapo estourar sozinho e nos separarmos para sempre. Não fazia sentido sustentar uma amizade ocasional, educada até, que não passava de uma cópia enferrujada de momentos guardados em um pingente de ouro. Ah, cara, eu me sentia tão triste pelas coisas estarem acontecendo desse jeito. Não era pra ser assim. Era pra termos um gato e um cachorro, um rodinho de pia e algumas plantas colocadas num lugar com sol no nosso apartamento pequenininho. Será que eu devia quebrar o trato? E se algum dia o brilho no olho voltasse, as conversas durassem horas novamente e eu fosse feliz? Sorri. Sorri calma e certa de que se isso acontecesse de novo, iríamos conseguir inventar tratos novos com o universo, barganhando domingos de sol e cerveja barata. 

Olhei para ela, que me fitava, já ciente do que estava acontecendo e do que aquilo representava. Eu mataria para saber a opinião dela sobre aquilo tudo, para ter todas as bordas afiadas do seu pensamento expostas para  análise. Mas se eu soubesse nós nunca teríamos dado as mãos enquanto afundávamos no mar quieto do nosso amor. 

Um último abraço foi trocado e dessa vez me concedi alguns segundos a mais respirando seu cheiro e armazenando aquela memória em uma gaveta de cor azul. Ela também não me soltou tão depressa como nas outras vezes. Dessa vez eu não deixaria escapar  um "me avisa quando chegar em casa", porque sabíamos que isso não iria acontecer, que não era mais necessário. Sabíamos que o universo estava cobrando de cada uma o tempo que não soubemos administrar e que tinha chegado o momento de morarmos cada uma em si, aperfeiçoando os detalhes da alma e trilhando um caminho próprio. 

Quando nosso abraço acabou, o aviso de fechamento das portas apitou, e pela primeira vez em muito tempo precisei correr de verdade para entrar no vagão. 

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