Ele não sabia ao certo onde estava, nem mesmo tinha noção do que esperar daquele caminho que, apesar de pouco familiar, lhe prendia atenção a cada metro explorado. Na tentativa de organizar os pensamentos que chegavam de forma involuntária, não podia sequer discernir as mais claras sensações como sendo de um sonho ou realidade. No entanto, isso não parecia ser um problema, já que sua curiosidade era maior do que qualquer receio dos eventuais riscos daquele lugar.

Seus pés, livres de qualquer calçado, sentiam o caminho de terra úmida, com poucas pedras e cascalhos, às vezes acompanhados de rastros indefinidos ou caminhos desenhados por diferentes espécies de formigas, das quais sempre se preocupava em não interferir. Era uma floresta densa e muito bonita, com predominante verde escuro para todos os lados, o que dificultava sua localização sem equipamentos específicos.

Apesar da pouca luz que as árvores permitiam chegar do céu, era possível ter uma noção do que tinha mais pra frente e, mesmo sem ter certeza de um caminho ideal, intuitivamente parecia saber para onde seguir. De forma ritmada e metódica, enumerava em voz muito baixa, praticamente sussurrando, cada passo que dava em direção ao nada, buscando mais conforto e segurança na medida em que os números cresciam em sua contagem. Havia uma preocupação clara em preservar o silêncio, para assim desfrutar de todos os sons que a natureza lhe oferecia. Mesmo controlando sua velocidade, mantinha um ritmo cardíaco acelerado e respiração ofegante, agravada pelo forte calor.

Não demorou muito para que uma luz mais forte vinda do horizonte chamasse a atenção. Na medida em que se esforçava para caminhar em direção à luz, essa ficava mais forte e permitia observar com mais qualidade a riqueza de detalhes daquele ambiente. Os tons de verde ficaram levemente mais claros, o som do vento forte e a temperatura mais amena, certamente por conta da brisa que já era possível sentir de um lugar alto.

Aliviado, mas ainda muito cuidadoso com os obstáculos a seu redor, esboçou um sorriso tímido ao contemplar por alguns segundos a magnífica paisagem que via. Agachando para encontrar uma posição mais confortável, apoiou firmemente sua mão esquerda em uma pedra, enquanto a outra, protegendo seus olhos da luz do sol, permitia uma observação mais cuidadosa daquele conjunto de vales e montanhas. Seu objetivo era não só admirar a paisagem, mas também definir um destino para continuar sua expedição.

A audácia o pôs a embalar na descida do monte, em direção a uma estrutura de madeira com forma de difícil dedução, ainda muito pequena em seu olhar por conta da distância, mas que chamou atenção por parecer ser uma casa. Enquanto se aproximava ao local, caminhando de forma menos acelerada ele ergueu levemente sua cabeça, fechou os olhos e, novamente parecendo sussurrar, pediu ao destino que o permitisse desbravar mais um pouco esse ambiente, por mais que estivesse vivendo o que parecia ser um sonho.

A poucos metros de uma cerca branca já bastante gasta pelo tempo, pôde observar algumas ferramentas de jardinagem encostadas em arbustos, seguidos de diversas flores que coloriam um caminho induzidos por pedras, dispostas de forma manual ao longo do terreno, que aparentava ser muito bem cuidado. O contraste da riqueza de detalhes com a simplicidade despertou ainda mais sua curiosidade sobre o interior daquela casa.

Antes de arriscar entrar, observou com atenção cada detalhe do lado de fora. As paredes de alvenaria com madeira, as telhas de barro que cobriam o teto, as decorações rústicas e antigas, os vasos de plantas trabalhados com técnicas de mosaico, as janelas grandes de vidros grossos, o tapete de crochê em frente à porta principal, a rede fibra que balançava levemente com o vento e diversos outros pequenos trabalhos manuais. Absolutamente tudo do lado de fora da casa passou pelos seus olhos.

Quando se sentiu mais confiante, aproximou-se da porta e percebeu que ela estava semiaberta. O pouco espaço entre o batente e a maçaneta permitiu enxergar uma poltrona preta de leitura, identificada por um grande abajur branco de arco que estava aceso bem ao lado. A luz amarelada do abajur iluminava também parte de uma cristaleira e algumas estantes cheias de livros, muito bem enfileirados e aparentemente seguindo uma lógica de ordenação. Empurrou com cuidado a porta, apenas o suficiente para permitir sua passagem. A luz do sol que entrava pelas janelas era amenizada pelas finas cortinas de seda de cor clara, e as decorações da mesa de centro ornavam perfeitamente com o tapete de estampa contemporânea. O tic-tac de um relógio grande de parede de números romanos e com moldura de madeira maciça não foi o suficiente para preocupa-lo em relação ao tempo, ele nem sequer se atentou em olhar as horas, pois estava mais dedicado em continuar a apreciar aquele ambiente desconhecido e aconchegante.

Cercado por souvenirs de diversos países, pinturas em aquarela, óleo em tela e duas grandes estantes com livros e uma respeitada coleção de moedas exposta em quadros, pôde encontrar, em um lugar de destaque da sala, um piano de calda preto ainda bem preservado apesar de muito antigo. Seus olhos brilharam com o contraste das teclas, todas muito limpas e bem cuidadas, logo abaixo de um caderno de capa de couro marrom com um conjunto de partituras que, coincidentemente, estava aberto em uma de suas músicas favoritas, suíte 1 de Bach.

Ao olhar para trás na tentativa de encontrar algo a mais que o fizesse surpreender, percebeu que havia um corredor largo com três portas, todas de madeira e muito parecidas. Sem demora, partiu para a primeira das portas, a mais próxima da sala. Ao abrir, com maior cuidado ao que abriu a porta de entrada, pôde perceber muitos objetos que lhe eram familiares, sendo que a grande parte desses objetos espalhados pelo quarto o fazia lembrar com emoção suas memórias do passado. Não deixou de reparar em uma flauta colorida que tocava ainda quando criança, em um mico-leão-dourado verde de pelúcia, primeiro presente que recebeu do sua irmã mais velha, em uma caixa pequena de papelão usada para colecionar pedras dos diversos lugares que passava, entre outros objetos que despertavam nostalgia. Mas, o que realmente o fez resgatar com muita emoção seu passado, foi um caderninho. Nele, costumava escrever todas as coisas boas das quais gostaria de lembrar sempre, todos os momentos importantes, lições aprendidas e, principalmente, os sonhos que queria um dia realizar.

Antes que sua atenção fosse completamente tomada pelo caderno, teve a ideia de colocá-lo em uma bolsa que estava pendurada no quarto e partir para próxima porta. Apesar da curiosidade sobre os escritos de seu passado, preferiu levar e desfrutar com calma, para primeiro sanar sua ansiedade em relação às demais partes da casa.

Com um pulo rápido, se colocou frente à segunda das portas. Dessa vez não se deu o cuidado de abrir devagar, então, em poucos segundos, já estava desfrutando do novo ambiente que, para sua surpresa, não tinha nenhum objeto que representasse seu passado, mas diversos outros que faziam parte de sua rotina, de sua atualidade. Alguns presentes que havia ganhado há pouco tempo, seus instrumentos musicais mais tocados, algumas das roupas favoritas, quadros e outros objetos que decoravam seu quarto, os livros que acabara de ler, fotos de pessoas muito próximas, e outros.

Diferente do primeiro quarto, a sensação não foi de nostalgia, mas sim de certo conforto em ver tantos objetos familiares, mas, influenciado pela bolsa com o livro que pegara do primeiro quarto, seguiu na ideia de recuperar do quarto um dos objetos, certamente aquela que melhor representava seu presente. Ficou em dúvida e, por alguns segundos, cogitou não lavar nada, mas, ao se deparar com um quadro de mapa que comprou para planejar suas várias viagens que gostaria de fazer pelo mundo, não teve dúvida, enrolou bem o mapa, colocou na bolsa junto com o caderno e deu sequência.

Ainda um pouco aflito, se posicionou de frente para terceira e última porta do corredor. Ao lado, havia um espelho com moldura de ferro, formando conjunto com uma pequena mesa que se encontrava logo a baixo, dando apoio a um vaso branco que abrigava uma orquídea. Era impossível ver uma orquídea e não se lembrar de sua mãe. Sem demora, direcionou levemente os olhos para cima novamente e, olhando seu reflexo no espelho, respirou fundo. Abriu a porta.

O que ele via parecia não ter explicação. As pessoas e seus sorrisos, os lugares e suas belezas, os objetos, as sensações. Agora sim tudo aquilo parecia fazer parte de um sonho. Seria fruto de imaginação? Aquilo não era um quarto comum, nem sequer podia ser chamado de quarto, era como se tivesse aberto uma porta que o levasse para outra dimensão. Ele não sabia muito bem o que achar daquilo, mas não teve pressa, sentiu cada detalhe, cada sentimento, cada toque. Emocionou-se por diversos momentos ao perceber que tudo que via era exatamente o que queria. Era o destino. Por mais difícil que seria o caminho para chegar até lá, e ele sabia disso. Experimentar esse momento era como ter a oportunidade de viver o futuro por alguns minutos. Seus sonhos, suas viagens, influências, amigos próximos, familiares, conquistas. Todas as coisas que mereciam sua dedicação estavam de alguma forma presentes naquele quarto.

Mais uma vez expressou um sorriso sincero, limpou uma única lágrima que escorria rápido em seu rosto, virou as costas e saiu do quarto. Abraçando forte a bolsa que levava, seguiu com um andar leve em direção à mesma porta que permitiu sua entrada na casa, com ligeiros movimentos no pescoço observou atentamente todos os cantos e objetos que lhe chamaram mais a atenção, e partiu. Teve o cuidado de deixar a porta da mesma forma que encontrou, caminhou em linha reta em direção ao jardim do lado de fora, curvou-se levemente para passar entre a rede de fibra e uma viga de madeira, a fim de encurtar seu caminho para saída, quando, para sua surpresa, um homem se aproximou.

Sem saber explicar o porquê, teve certeza que o homem era o dono da casa. Ele vestia um jeans não muito limpo, com camisa de flanela xadrez manga longa, carregava uma sacola e esboçava um sorriso curioso. Sentiu medo, não soube o que fazer, ficou confuso com tudo que estava acontecendo, não desejando passar por aquela situação. Esse era o momento de acordar do sonho, de voltar para o conforto do seu lar e guardar as lembranças das sensações da floresta e da casa. Mas, antes que pudesse racionalizar o que acontecia, identificou sua própria identidade naquele senhor. Chegou perto, o encarou de forma simpática e, por alguns segundos, já sem necessidade de entender o que acontecia, encontrou plenitude no olhar do nada estranho desconhecido. Lembrou rapidamente de tudo que viu na casa, lembrou-se de todas as sensações que teve ao entrar em cada um dos quartos e, com firmeza e sinceridade expressou duas palavras em bom tom: Muito obrigado!


Tags

comentários (0)

Sem comentários