Tem muito tempo que eu quero falar sobre os pecados de Jair e não arrumo tempo para isso. É que, de uma certa forma, me parece tão óbvio que o candidato queridinho da proto-direita brasileira é uma farsa que não me parece necessário apontar isso. Mas, ao mesmo tempo, observando o seu crescimento recente sou obrigada a fazer uma incursão, muito necessária, em seu passado e presente para tentar antecipar um pouco do futuro.

Vamos começar falando um pouco sobre quem é Jair Messias Bolsonaro. O pré-candidato é um militar de reserva, que entrou para a política em 1988.

O fato de um ex-militar entrar para a política no final da década de 1980 já é um péssimo indicativo. Com o país dando adeus a uma Ditadura que marcará para sempre sua história pela brutalidade, ver qualquer membro de nossas Forças Armadas ganhar democraticamente o direito de permanecer em posição de poder é, no mínimo, um sintoma de nosso autoritarismo. E olha que àquela época Bolsonaro era quase que um rebelde.

Há não muito tempo havia participado da Operação Beco Sem Saída, um ataque terrorista que visava salários melhores. O capitão do exército havia, também, sido preso por alguns dias por reclamação idêntica, esta publicada na Veja sob a forma de um artigo de opinião.

Nos anos seguintes, Bolsonaro não fez muita coisa pelo povo que o elegeu. Trocou de partido, uma, duas, sete vezes. E apesar de angariar recordes de votos, até então, é uma figura cuja maior conquista é uma briguinha ou outra com seus colegas de casa legislativa.

O que o diferencia são sua tão famosas "posições". Pois aparentemente, para o brasileiro, é isso que importa agora. Bolsonaro é contra boa parte da Constituição, acreditando que "bandido bom é bandido morto" e que a tortura é um método válido para se obter confissões de traficantes e sequestradores. Infelizmente, posições como essas não são incomuns entre o povo brasileiro, mas não deixam de ser absurdas vindas de alguém que, alguns dias atrás, publicou uma carta dizendo que governará sob a luz da nossa carta magna.

Agora nos concentraremos um pouco nessas tais posições, a fim de entender porque é que tanta gente acredita que o projeto de Bolsonaro é positivo para o Brasil. Se você tem o hábito de frequentar redes sociais, como o Facebook e o Twitter, nota que a polarização política entre os brasileiros só cresceu nos últimos anos.

Poderíamos dizer que pouco importa os motivos que ocasionaram este crescimento, mas a realidade é que eles são extremamente relevantes. Se coubesse a mim apontá-los, levantaria o avanço do evangelicismo, a desilusão com o Partido dos Trabalhadores e a crise econômica como agentes principais nesta mudança.

Fato é que muita gente que jamais teve posicionamento político decidiu exercer suas visões de mundo. E elas são, na maioria das vezes, confusas. Não há um posicionamento econômico, moral ou ideológico que norteie a maioria dos apoiadores de Bolsonaro.

Eles provavelmente lhe dirão que são "conservadores socialmente, mas liberais economicamente", o que não procede. Apresentados a qualquer conceito do liberalismo, como o laissez-faire geralmente reagem em contrário.

Há um desalinho conceitual nessa massa de apoiadores, que coloca Bolsonaro como segundo colocado na disputa presidencial segundo pesquisas recentes, porque há um desalinho conceitual no brasileiro médio. Ele geralmente apoia ideologias porque lhe parece uma boa ideia fazer parte de um clube e menos porque as compreende. 

Apontar isso, de forma alguma, é arrogância. Trata-se de uma constatação fundamental e relevante para se entender o fenômeno Bolsonaro. E uma que se reflete em todo o sistema político brasileiro.

Em certa ocasião escrevi sobre partidos e como eles são esvaziados no Brasil. Isso se traduz em políticos igualmente esvaziados, dispostos a apoiar o que quer que seja, de acordo com os ventos da época. É muito difícil, portanto, falar que há um movimento conservador no crescimento de Bolsonaro porque o que há é um movimento oportunista.

Um movimento que percebe que o brasileiro não se conforma com uma coisa ou outra, gosta de um certo autoritarismo no trato com aqueles que considera membros desgarrados da sociedade e vive indignado com o monstro invisível da corrupção. E é exatamente por isso que trata-se de um movimento extremamente perigoso.

O que muitos argumentam é que Bolsonaro jamais teria a capacidade de governar, porque as nossas instituições democráticas não permitiriam isso. A essas pessoas falta observar nossas instituições democráticas, que se movem apenas de acordo com os próprios interesses e nunca como resposta a uma demanda social.

Se você ainda não tem medo da candidatura de Bolsonaro, deveria. Tratá-la com ironia e desprezo não faz favores a ninguém.

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