Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras do Brasil eram férteis e verdejantes, escreveu uma carta ao rei:

— Quando o brasileiro aprender a votar, tudo melhora!

OK, não foi exatamente isso que aconteceu. Entretanto, você consegue entender onde eu quero chegar. O brasileiro, antes de ter direito ao voto, já achava que o outro brasileiro não sabia votar.

Um dia, um político descerá de uma estrela colorida e brilhante e realizará todas as suas vontades. Para algumas pessoas, é aí que chega o verdadeiro socialismo. Para outras, o tal político vai elevar nosso padrão de vida para o de um país escandinavo. Outros acreditam que o mero fato desse político caído do céu existir dará jeito em todas as coisas que não deram certo até agora.

Deixa eu te contar uma coisa: o Brasil não deu certo não é por falta de tentar. Teve monarquia, ditadura, governante populista, flerte com o fascismo, teve almofadinha e trabalhador no poder. Todas as fórmulas que dava pra tentar, acredite em mim, a gente tentou. 

Não vai acontecer de você magicamente, com um reply, conseguir que o brasileiro aprenda a votar. Entra agora aí no perfil do seu jornal favorito e abre uma notícia sobre corrupção. Conta quantos o brasileiro precisa aprender a votar aparecem. Eu chuto que todos.

Daí vem o oxímoro. Se todo mundo sabe que o brasileiro precisa “aprender a votar” (pois aparentemente isso é um conceito, existe votar certo e existe votar errado) por que ninguém coloca tal coisa em prática?

Porque é impossível votar certo entre todos os candidatos errados. E, mesmo que tivéssemos os candidatos certos, eles não seriam certos para todo mundo. É o paradoxo da democracia: tem sempre um pau no cu no meio do caminho. E esse pau no cu discorda de você e não deixa que o mundo vire uma ditadura do Antônio de Souza. É assim que funciona. Alguns diriam que isso é o ponto alto da democracia. 

E esse sempre será o ponto alto da democracia, porque sempre terá o pau no cu que discorda de mim e o pau no cu que discorda de você e o pau no cu que de jeito nenhum vai deixar a doida da sua vó sair por aí fazendo as barbaridades que ela fala.

Vamos um pouco lá atrás, nos gregos. Porque, se eu não me engano, foram os gregos que inventaram esse negócio de democracia. Bem, os gregos gostavam muito de comer cu e beber vinho, mas eles gostavam muito também de debater coisas entre si. Quando eu digo entre si, obviamente eu estou falando entre as cinco pessoas que eram livres naquela época, mas você me entendeu. E os gregos perceberam que esse negócio de debater entre si até que funcionava.

Porque ficava TODO MUNDO INSATISFEITO. E quando fica todo mundo insatisfeito, é justo. 

O que não pode é Mussolini ir lá e sair pegando um pessoal na porrada enquanto o outro pessoal ele trata com carinho. Não é assim que funciona. Ou você pega todo mundo na porrada ou nada feito. 

Então, obviamente, o pessoal não gostou de cara porque é uma ideia difícil de engolir, mas eventualmente eles falaram: “vamo tentar aquele negócio lá dos gregos”.

Aí alguém perguntou: “beber vinho e dar o cu?” e alguém respondeu: “não, isso a gente já faz”. E assim nasceu a democracia no Ocidente.

Vale aqui lembrar que o Brasil não é exatamente Ocidente, mas tadinho, ele acha que é porque uma vez, três pessoas foram enviadas para lutar numa guerra. Coitado do brasileiro, ele se apega a cada abobrinha.

Mas aí está. Quando o princípio da coisa é “não existe a pessoa certa”, não dá para você ficar confiando nessa abobrinha de que, de repente, há que se eleger uma pessoa ideal que vai arrumar o Brasil inteirinho. Esse enviado dos céus vai acabar com a corrupção, vai botar seu filho no colégio e vai fazer você deixar de ser broxa. E ele vai fazer tudo isso com o Poder do Não Existo.

Não precisa nem de anedota esse capítulo porque você já passou por isso, eu já passei por isso, dona Mirtes, que faz a unha da sua tia, já passou por isso. Começa um assunto de boas sobre os problemas do Brasil (que é um assunto muito gostoso, afinal, o Brasil tem muitos problemas e é muito bom falar de problemas ao mesmo tempo em que ninguém oferece nenhuma solução) e vem o insuportável do Gustavo. Aí ele estufa o peito, coitado, igual ao otário que ele é e manda:

— O Brasil só vai mudar quando elegermos as pessoas certas!

Aí o papo fica desconfortável de repente, né? Porque, nossa, Gustavo, você inventou a roda. Parabéns. Quer dizer que o Brasil vai mudar se a gente votar num grupo de pessoas, que no caso, pasme, faz as coisas certas e em momento algum faz as coisas erradas? Conta pra mim, Gustavo, como você chegou a essa brilhante conclusão? Foi a sua vovó que lhe deu muito Biotônico Fontoura e fez você ficar esperto desse jeito? Que bacana, Gustavo! Eu realmente, wow. Não havia pensado por esse viés.

Por que você não pega as pessoas certas, coloca todas elas numa fila indiana e enfia lentamente no meio do seu cu? Não sou eu que estou falando, Gustavo. São os gregos.

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