Muitas histórias passam desapercebidas numa cidade como São Paulo. Milhões delas todos os dias, por certo. Talvez centenas de acontecimentos minimamente interessantes, polêmicos, surpreendentes ou espirituosos. Quase todos efêmeros, que não fariam sentido um par de dias depois; não dariam uma notinha no SPTV segunda edição ou um post de sucesso no Facebook.

Mas há algo acontecendo nesta cidade desde muito tempo sem ninguém noticiar. Não vira assunto na fila das casas lotéricas ou na espera do endócrino. Até os boatos têm mais notoriedade por esses lados.

A história é real, até conheço pessoas que são; e são discretas. São todas do simpático bairro da Vila Matilde, na Zona Leste da capital. Vizinha de bairros igualmente simpáticos, porém mais destacados como Carrão e Penha, a Vila Matilde nunca foi muito comentada. Não é de sair nos jornais porque aqui não acontece nada. Não há homicídios, incêndio de favelas ou congestionamentos. Claro que o trânsito sempre para na Valdemar Carlos Pereira, rua principal que rasga o bairro de uma ponta a outra, mas nada além disso.

A Vila Matilde, como estou dizendo, é um bairro pacato. Tanto quanto o Horto ou o Ipiranga, este que já foi mais badalado. A grande história da Vila Matilde é sobre seus idosos habitantes. Outros bairros, tal qual Mooca e Higienópolis, têm seus velhos muito mais alardeados. Ganham pecha de bairro de velho. Se o carro da frente não anda é velho; se a fila no Pão de Açúcar empaca: velho.

O que não se fala por aí é sobre as diferenças dos idosos de cá. A começar pelo hoje já falecido Valdemar Carlos Pereira. Recebeu a distinção em nome de rua ainda em vida porque não morria nunca. Foi bater as botas aos 142 anos, num acidente durante uma corrida de cavalo em sua chácara em Ibiúna. Sua mulher, hoje sua rua perpendicular, preparou seu velório quando já tinha 135. Infelizmente o baque foi grande e morreu 3 anos depois.

Hoje o fenômeno, que por aqui não causa frisson, ainda persiste. Nos pequenos mercados, na feira de domingo na esquina da Dona Matilde — esta enterrada aos 201 anos — vê-se idosos velhos aos montes. E chamo de idosos velhos porque os idosos da Mooca ou de Higienópolis certamente se sentiriam menos velhos por aqui.

Seu Toninho, meu vizinho: 119; Dona Otília, do outro lado da rua: 131 (eu daria no máximo 100); Dona Terezinha, da Rua Melchert, diz que seu pai foi à guerra (do Paraguai). Por essas e outras que não saio daqui. Gosto de manter meu IPTU pago em dia para não perder o privilégio, seja ele qual for.

Pois é, o motivo não se comenta — se é que há motivo ou explicação. A situação, pelo que se tem registro, é única no Brasil. O único bairro que teria aposentados pela nova regra. É capaz de chamar atenção das autoridades. Os postos de saúde são bons; não muito bons, mas bons para postos de saúde. Hospital só tem um mas, este sim, é ruim. A água falta igual falta em outras redondezas; também não seria essa causa. E não creio em irregularidade, corrupção, favorecimento; sempre é uma opção para tudo, mas não aqui.

Fato é que a Vila Matilde segue senil. Mal das pernas por suas ladeiras. Ruim da memória mas não sem história. Pois aqui não nos dizemos república como na Mooca, ou diferenciados como em Higienópolis, e, na verdade, não dizemos nada. Preferimos ficar quietinhos, assoprando velas e mais velas, e vendo a vida passar. No meio do meio da Zona Leste de São Paulo, um pedaço do interior, onde o tempo parou sem ter parado. Onde vive-se.

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comentários (1)

  • Eu nunca mais vou conseguir pegar a linha vermelha ou passar por aquele viaduto sem pensar nesse conto.

    Ananda Castilho 01/10/2017 @ 23h