São, talvez, 4 da manhã de domingo. Eu tô jogado na cama, de calça jeans, prestes a dormir num colchão sem lençol, aqui na casa do meu amigo. A gente voltou agora há pouco da balada. Foi legal. Eles se divertiram.

Pra mim foi meio xis. Eu não consegui ser inteiro, parecia que eu não tava ali. Pelo menos, a vantagem de eu sempre ser fechado, é que eles já estão acostumados com minha “distância”, nem devem ter reparado que eu tava com a cabeça longe. Fora de Riberão. 

O lugar era muito legal, você teria achado irado. Teria se divertido. Eu teria me divertido. 

Agora, aqui deitado, tô pensando em você ainda. O colchão sem lençol parece o chão do Atacama. Me sinto só, numa imensidão vazia. 

Me imagino dizendo pra você o quanto eu sinto sua falta. Uma pena que esse pequeno prazer seja cortado quando lembro que você não iria gostar de ouvir isso. Teria pena de mim por não ter te esquecido, diria pra gente se afastar. Outra vez. Por isso só imagino. Guardo pra mim, com angústia, a vontade de te contar tudo isso.

E dói. Parece que aqui no Atacama, sem lençol na cama, a solidão é maior. Parece que, nesse instante, ninguém no mundo é mais só que eu. Eu que só queria você por aqui.

Em algum momento eu acho que eu falei de você pra eles. Algum assunto frívolo fora pretexto pra mencionar seu nome. Eles certamente perceberam e devem estar comentando agora, no quarto ao lado do colchão com lençol, “o Artur ainda gosta dela”. Devem sentir a mesma compaixão que você. Mas melhor assim, sem tocar no assunto.

Mais uns instantes e eu pego no sono. Amanhã quando acordar, vou olhar o celular na esperança vã de ter alguma mensagem sua. Vou lembrar da noite, do quanto você fez falta. Vou cogitar mais uma vez te contar tudo isso, dizer que te amo. Vou imaginar você decepcionada comigo por isso e deixar pra lá.

Segunda-feira vai ser difícil. Já em São Paulo, vou querer te contar do final de semana, mas vou ficar na minha. Talvez eu prometa não falar com você por dez dias. Vou procurar pensar em outras coisas, sem muito sucesso. No começo da noite, devo sentar e escrever esse texto. Só pra chorar o que não chorei agora. 

Respiro fundo.

Vai passar.

Mas viu… te amo.

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comentários (2)

  • "Parece que aqui no Atacama, sem lençol na cama, a solidão é maior" parece frase de música do EngHaw. Adorei. Gosto muito da maneira que tu escreve, Rafa. Escreva cada dia mais, por favor!

    Eduardo Coutinho 16/08/2017 @ 21h
  • eu concordo 120% com o dudo essa frase me impactou demais obrigada pelo texto!

    Laís Hilario 17/08/2017 @ 00h