Ainda era maio. Eu estava em algum lugar no meio do deserto da Namíbia, cortando o país em um ônibus da Intercape, sentido África do Sul. A essa altura da viagem eu já estava na estrada há muitas horas, o dia se aproximava do fim e, pela janela, eu via o sol encostar nas montanhas onduladas bem longe dali. Um horizonte laranja e sereno, único, de um jeito que a gente não se cansa.

Coloco Transa para tocar. O português-inglês do Caetano combina com aquele momento. I’m alive. Estamos, Caetano.

Começo a pensar em todos que me acompanharam naquela viagem que fazia sozinho. As pessoas no Brasil com quem compartilhei minhas excitações e hesitações, minha mãe que comentava em todas as fotos no Instagram; as pessoas que cruzaram meu caminho e seguiram suas jornadas para Lusaka, Zanzibar, Maputo ou Madri; os sons locais que ouvia nesses caminhos; Bethânia, Alceu, Paulinho da Viola, Harry Styles. Caetano.

Em alguns momentos eu lia On the Road e, provalmente por isso, eu lembre bem dessa estrada sem fim, de pensar com quantas pessoas se faz uma viagem sozinho, como Kerouac também fizera. E mesmo ali, no deserto, sem sinal, mas com papel e caneta, também não sentia só. Que loucura. Lenine. Quem leva a vida sou eu. Nesse momento eu já chorava.

Volto lá atrás, quando estava cabisbaixo no trabalho e não imaginava um dia estar no meio do nada, na Namíbia. Nos bancos da frente naquele ônibus estavam duas americanas que eu havia conhecido na Zâmbia. As reencontrei, por acaso, mil quilômetros depois. Quando eu estava cabisbaixo, se encontrasse alguém por acaso, certamente fingiria estar no celular, tentaria me esconder. Ali não.

Agora é quase outubro. O ano se aproxima do seu quarto final e eu lembro novamente daquela estrada, de Caetano cantando I’m alive, vivo, muito vivo, vivo, vivo. Me sinto tão vivo quanto eu posso. Me lembro do ano em que eu saltei de paraquedas e me sinto mais vivo ainda.

As pessoas que eu gosto só aumentaram, coisas que não faziam sentido agora fazem, quem leva a vida sou eu. E a deixo me levar, tudo bem. I’m alive.

Nos melhores dias da minha vida eu não tinha muito dinheiro mas as coisas que eu precisava também não custavam muito. Nos melhores dias da minha vida eu estava sozinho ou com gente nova mas meus pais e meus amigos estavam ali nos meus pensamentos. Nos melhores dias da minha vida eu fui eu mesmo. Nos melhores dias da minha vida eu sabia que era feliz. I’m alive.

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