Cada livro que leio, sinto que estou sendo apresentado à vida de alguém. Alguns me marcam até hoje, alguns me remetem a lugares específicos, outros se perderam na minha estante. E algum lugar, cada uma de nossas histórias estão guardadas. Cada uma, um livro sem capa, sem folha de rosto e sem apresentação. Um livro com folhas cor de marfim, às vezes brancas como uma nuvem em um meio de tarde de verão, às vezes cinzentas como uma manhã chuvosa. As letras, escritas em preto, à mão. Alguns trechos estão apagados, mas ainda são legíveis se olhar com atenção.

Seu livro não tem capítulos, não tem parágrafos. Cada frase é uma lembrança, cada verbo um momento. Algumas páginas tem escritas que talvez não sejam suas, em uma caligrafia que um dia talvez tenha sido. Existem trechos que com certeza não foram escritos originalmente no seu livro, mas agora você os toma como seus, e são importantes onde estão.

As primeiras páginas já não fazem mais sentido, mas são importantes para essa história. Talvez você nunca entenda o que está escrito ali, mas ela não pode ser apagada, reescrita ou arrancada. Nas páginas mais recentes, você consegue ver com clareza os personagens, consegue entender as motivações, mas não há como saber qual vai ser o clímax, nem se esse arco está chegando ao fim.

Não existe um final. As próximas páginas estão em branco. Alguém pode ter um rascunho das próximas linhas, você pode ter uma ideia do início da próxima aventura e dos personagens, como eles vão se envolver, quem vai estar ali para a epopeia seguinte. Apesar disso, nada está escrito, e seu pote de tinta está cheio. Podem dizer que uma caneta é mais eficiente, ou que o lápis não mancha a página de baixo, mas não vão te dizer que a pena é sua, nem que esse livro não precisa ser perfeito.    

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