Eu consigo lembrar claramente: o ano era 2016 e Pokémon GO tinha acabado de lançar, quebrando todos os recordes de métricas possíveis para lançamentos de serviços na internet até então (6,7 milhões de downloads em um dia, por exemplo).

Sexta-feira, 21 de Julho, eu e meu amigo Bruno Oliveira fomos honrar uma tradição que havíamos estabelecido há um tempo: quando estávamos cansados do trabalho ou estressados com algo devido aos nossos trabalhos (nossas empresas dividiam escritório), íamos no Bullger da Vila Madalena para descontar as angústias. Sabe como é, a pressão aumenta no escritório, o pau canta no hambúrguer.

Estávamos sentados na mesa, comendo aquela batata deliciosa, quando falamos do lançamento do app (vários dos nossos amigos que trabalhavam na região tinham baixado e ficaram a semana toda com o celular capturando Pokémons), comentamos de um meme que tinha aparecido no Twitter em que uma pessoa dizia que deveria ter um app pra capturar a cerveja mais barata.

Como apreciadores de cerveja, universitários recém formados e ambos sem um puto no bolso - universitário recém formado e pobre é pleonasmo, eu sei - acabamos pensando como um app desses realmente seria bom. Lembro da frase que um de nós soltou:

"Imagina isso aqui onde a gente está, do lado da Aspicuelta (rua cheia de bares da Vila Madalena). Você abre o app e consegue ver a cerveja mais barata em um raio de 1km, como seria uma mão na roda".

Nisso a gente se olhou, ambos pensando "pera lá, isso faz sentido".

Começamos a jogar algumas perguntas no ar, pra ver a viabilidade da ideia.

"Como pegaríamos os bares da região?". "O Foursquare deve ter uma API que devolve os estabelecimentos de uma região, deve dar pra filtrar por bar, deixa eu pesquisar rapidão. É, aparentemente dá".

"Mas a gente teria que ir de bar em bar pra ver preço de cerveja? Aí fica difícil". "E se a gente fizesse que nem o Waze faz com gasolina, que os próprios usuários vão colocando a informação".

A cada pergunta que levantávamos, na hora conseguíamos pensar numa resposta que resolvia o problema. Em coisa de quarenta minutos, tínhamos uma ideia que parecia fazer sentido. Era escalável. Não era difícil. Tinha um público e objetivo claro. A monetização ainda era uma questão em aberto, como sempre é nesses casos. E o mais importante de tudo, tínhamos um ótimo nome, cortesia do Bruno: "Já sei até o nome: Preço do Litrão".

Fomos embora com um combinado de que íamos explorar melhor a ideia na semana seguinte.

O problema foi que eu acordei no sábado me coçando. O maldito app não saia da minha cabeça e decidi me por a trabalhar.

Eu sempre digo que odeio programar. Não vejo graça ou vontade de estudar coisas novas, que nem muitas pessoas da minha área, e certamente não acho que uma pessoa é melhor só porque sabe fazer um sistema. Na verdade, sou totalmente contra os tais "evangelistas de programação" e sou muito vocal de que essa galera precisa abaixar muito a bola. Programar é só uma habilidade de trabalho, que nem qualquer outra coisa.

No entanto, uma coisa que eu não posso negar que me atrai é como essa ferramenta permite que eu viabilize e tire minhas ideias do papel de uma maneira rápida e barata, e foi isso que aconteceu.

No sábado eu fiz toda a parte de obtenção de coordenadas geográficas, integração com o Foursquare e e armazenagem no banco de dados próprio. No domingo eu fiz uma visualização web simples, porém bonita e prática: lista de cervejas (600ml ou 1L) mais baratas, separadas por marcas, em forma de lista e um formulário para cadastro e outro para envio de preço.

Na segunda, cheguei radiante no escritório e falei: "Brunão, lembra daquela ideia? Tá feita.".

Mostrei pra ele, mas claramente precisávamos de mais uma pessoa que soubesse trabalhar bem com números, que seriam nosso principal ativo. Por sorte, nosso amigo Vinícius Alcântara, que trabalhava conosco, topou entrar no projeto e colocamos o MVP (mínimo produto viável) no ar na terça feira, dia 25, apenas 4 dias depois da concepção inicial da ideia.

O que aconteceu nos meses seguintes foi bizarro, glorioso, animador e triste.

Aqui vão algumas coisas que aprendi nessa jornada e que me ajudaram muito a me tornar o profissional que tento ser hoje. Compartilho essa história não como uma história de fracasso, mas como uma forma de passar esse conhecimento para que outras pessoas evitem os mesmos erros que cometemos.

PARA UMA STARTUP, MARKETING É TUDO

O mundo corporativo gira na base da meteção de louco. É um "finge que me engana e eu finjo que acredito" pra todo lado. No entanto, você precisa de uma forma de fazer sua ideia se destacar e não tem jeito melhor do que tentar atrair atenção através de uma narrativa.

Por isso, enviamos em um tweet para a pessoa tinha feito a postagem original sobre o "app de capturar cerveja" e viralizou completamente.

Rapidamente nos tornamos o app inovador - que não era app ainda, mas falávamos que era porque a moda da época era lançar app - que tinha apenas um único objetivo: achar a cerveja mais barata perto de você. Nosso slogan era "beba mais pagando menos". É tão lindo que até me traz lágrimas aos olhos.

Mas funcionou e explodiu: Em um mês, tivemos quase 70.000 acessos.

Contratamos uma conhecida jornalista e começamos a enviar release para todos os portais, páginas descoladas de cerveja e de cotidiano no Facebook, tudo que achávamos que fazia sentido pra chegar no nosso público. Aprendemos aqui que uma galera realmente não tem noção (página de Facebook querendo cobrar R$ 1.000,00 pra fazer um post) e também que a maioria dos sites nem se dá ao trabalho de mexer no texto. Vários simplesmente copiaram e colaram o que mandamos pra eles.

Um dia a chave virou quando vimos o tráfego da plataforma explodindo. Tentávamos entender o que estava acontecendo quando o Vini fala meio assombrado: "Saímos no Catraca Livre, tanto no site quanto na página do Facebook". Nessa mesma semana, recebemos um e-mail da Pequenas Empresas, Grandes Negócios e eles queriam bater um papo conosco.

Foi uma das ligações mais surreais que eu já tinha feito. Eu era um moleque de 22 anos e estava dando uma entrevista sobre a minha "empresa".

O jornalista perguntou se eu tinha algum dado interessante para compartilhar com ele - spoiler: não tinha - e segui a regra de nunca dizer não, prometendo que ia enviar por e-mail. Mal tínhamos 1.000 preços cadastrados na base, mas é muito possível meter o louco com números reais, então pegamos os preços mais baratos que tínhamos na base e falamos que eram as cervejas mais baratas do Brasil (pelo menos na nossa plataforma). Mentira não era.

Saímos na versão digital e é um dos meus maiores orgulhos até hoje.

Marketing para uma startup é tudo, o importante é construir sua própria narrativa.

AS MELHORES IDEIAS SÃO PLATAFORMAS

Plataformas são lindas. Eu tenho um tesão e se pudesse só trabalharia com plataformas.

Para quem não sabe distinguir o que é uma plataforma, o YouTube é uma plataforma. O Spotify é uma plataforma. Facebook, Twitter, LinkedIn são plataformas.

Plataformas são serviços em que você (empresa) não é o principal gerador de conteúdo.

A beleza desse tipo de empresa é que o grosso do trabalho, que geralmente não é a especialidade da empresa, é feito por outras pessoas, permitindo que você foque naquilo que você sabe fazer de melhor. Produzir conteúdo é algo difícil, trabalhoso e nada escalável, já que possui barreiras de linguagem, custo e diversos outros fatores.

É muito mais vantajoso você oferecer a ferramenta para as pessoas e elas usarem aquilo da forma que acharem melhor, muitas vezes de maneiras que você não previu originalmente - você acha que o YouTube imaginava que existiriam pessoas que viveriam de fazer vídeos na internet?

Quer crescer exponencialmente? Faça uma plataforma.

CONCORRÊNCIA E GENTE SEM NOÇÃO É UM NEGÓCIO DIFÍCIL

Em menos de duas semanas depois do lançamento, surgiu um concorrente. Era um serviço completamente igual, que eles juram que não foi copiado, mas diretamente como app para Android. Até então, eu nunca tinha passado pela experiência de ter um concorrente real (quando era mais novo e tive outros tipos de site, éramos tão grandes que dominávamos todo o mercado).

Concorrência é que ela faz você se mexer. Éramos os primeiros e isso conta bastante, mas ser o primeiro não quer dizer que você será o melhor. Tínhamos que correr atrás.

A primeira coisa foi aprender a fazer app. Minha experiência até o momento sempre foi com serviços web, então fui pesquisar e colocamos na rua um app Android e iOS em questão de dias.

Lançamos uma funcionalidade de pontos e ranking, pra incentivar os usuários a fazerem o cadastro de novos preços (que começaram a aparecer pelo Brasil inteiro). Depois veio um mapa pra que a pessoa pudesse facilmente ver os bares na região dela que tinham preços cadastrados (mesmo que não fossem os mais baratos). Pensamos em um programa de rewards que seria nossa forma de monetização futura.

Para contexto, até então eu tinha trabalhado apenas em projetos de terceiros com minha empresa Kingly Studio. Como atuávamos muito no mercado de publicidade, as coisas que fazíamos eram pontuais e apenas uma vez, dificilmente tinha uma continuidade de plataformas.

Essa era a primeira vez em anos que tive um projeto próprio e que tinha uma necessidade de atualizações constantes, o que seria um dos problemas que levou a ideia a não dar certo, no final.

Outra coisa que aprendi com esse concorrente é que você não precisa ficar obcecado com o trabalho dos outros, sendo muito mais produtivo você focar em melhorar o seu produto da forma que você acha melhor. Muitas vezes, você só precisa ter fôlego para tocar seu produto e deixar que o próprio tempo cuide de se livrar dos seus adversários - tanto que vimos, meses depois, eles tentando vender a base de dados deles em um grupo de Facebook porque a ideia tinha morrido.

Concorrência também faz com você se torne criativo. Como chegamos antes deles e nosso nome e marketing era melhor, eles pegaram nosso nome e colocaram como se fosse um subtítulo do serviço, ficando "NOME DA EMPRESA - o preço do litrão". Dessa forma, sempre que nós saíamos em algum lugar, organicamente eles também ganhavam pontos no Google por causa das palavras chave. Touché pra eles.

Agora você pode estar se perguntando o porquê de eu ter citado gente sem noção ali no título.

Lembra que a ideia originalmente surgiu de um tweet e nós contatamos a pessoa para ela dar uma divulgada inicial, já que ela tinha um número considerável de seguidores no Twitter?

Bom, essa pessoa veio atrás da gente pra dizer que queria uma parte da empresa porque a ideia tinha sido dela. Qualquer pessoa que já tentou abrir um negócio sabe que existe um abismo entre ter uma ideia e fazer ela sair do papel e se tornar um produto real, mas, para essa pessoa, ela merecia estar envolvida simplesmente por ter feito um tweet.

Quando questionei o que ela tinha a oferecer, um circo se montou, com tweets falando que eu e minha máfia "risos" de amigos tínhamos roubado a ideia e estávamos ficando ricos em cima de algo que era dela. Quem dera.

Acho que foi a única pessoa que já bloqueei em redes sociais por causa de tanta encheção de saco.

EVITE AO MÁXIMO DEPENDER DE OUTROS PARA QUE SEU SERVIÇO FUNCIONE

Apesar da ferramenta básica de localização depender de serviços externos (Foursquare e depois Google Places), o Preço do Litrão sempre teve o plano de se emancipar o quanto antes dessas necessidades. Estava no planejamento uma funcionalidade de cadastro de bares por parte dos donos dos estabelecimentos e pelos próprios usuários, usando essas ferramentas apenas como um suporte facilitador.

A forma mais fácil de você inviabilizar seu produto é ficar refém de empresas ou pessoas que você não consegue controlar. Isso aconteceu de duas formas conosco.

Quando lançamos o app inicialmente, o cadastro era feito via login integrado com o Facebook, pela facilidade. No entanto, por motivos que não interessam a esse post, em 2016 eu fui banido pela segunda vez do Facebook e o login parou de funcionar, uma vez que estava atrelada à minha conta. Só fomos descobrir isso um mês depois, quando nossa nota na Google Play caiu brutalmente e as pessoas começaram a encher de comentários reclamando que não conseguiam fazer login.

Desde então, em todos projetos que já trabalhei, sempre defendi que qualquer ferramenta externa sirva apenas como algo extra ou facilitador, sempre tendo a opção de fazer as coisas via sistemas que a empresa controle.

Um outro caso foi na virada para 2017. Estávamos planejando uma segunda versão da plataforma para reenergizar a marca, que expandiria um pouco o escopo apenas da cerveja e iria para uma área de eventos, festas, etc. Decidimos usar o Carnaval de São Paulo para esse lançamento.

A ideia era usar a nossa ferramenta de mapa para que as pessoas pudessem acompanhar em tempo real o carnaval de rua, podendo ver no mapa a sua localização, serviços disponibilizados pela prefeitura (banheiros, ambulância, polícia, etc.) e também um rastreamento de onde estavam todos os principais blocos. Como todo bom frequentador de Carnaval sabe, é muito difícil saber onde está o trio elétrico caso você perca a concentração, então íamos oferecer um app para os organizadores que nos transmitiria a posição do bloco e os usuários poderiam ver tudo isso pelo mapa.

Pra viabilizar uma parte disso, precisávamos da ajuda oficial. Conseguimos uma reunião com um certo subprefeito e, em troca do fornecimento das informações oficiais de onde estaria a estrutura do Carnaval, faríamos um estudo do mapa de calor da movimentação dos nossos usuários, podendo servir de base para melhorar a organização do evento nos próximos anos. Recebemos uma promessa de cooperação total que nunca se concretizou. Foram mais de 10 e-mails para a equipe, ligações, e tudo ficou no gogó.

Sempre tenha um plano B que não dependa de ninguém.

Mas acabamos patrocinando um bloco de Carnaval, o que foi bem legal.

UMA EMPRESA PRECISA DE UM DONO PARA QUE DÊ CERTO

Essa é a principal lição que a experiência com o Preço do Litrão me rendeu.

Durante muito tempo eu não conseguia por em palavras ou expressar o motivo das coisas não terem ido para frente, até que eu e meu sócio na Kingly chegamos a uma conclusão, anos depois, em outras circunstâncias parecidas: uma empresa precisa de um dono. Um grande amigo meu, quando eu ainda era presidente do Diretório Acadêmico da minha faculdade, me disse que "uma pessoa não pode ser rei de dois castelos" e isso é muita verdade.

Uma empresa precisa de alguém que vá dormir e acorde pensando nela. Que fique bolando novas formas de impulsionar o negócio e que tenha disponibilidade para correr atrás para que isso se concretize. Que consiga motivar a equipe para um objetivo e que tenha tempo e energia para pensar no futuro. A empresa não pode ser hobby ou projeto paralelo. Se for para crescer, alguém precisa focar e regar todos os dias para que dê frutos.

Naquela época, as 3 pessoas envolvidas tinham outras prioridades maiores. O Bruno tinha a empresa dele, o Vinícius estava atolado de trabalho e eu, que era a principal peça da engrenagem, uma vez que era o único programador, não tinha condições de simplesmente largar tudo e focar nisso. Não dava para lançar as funcionalidades no tempo que o público exigia e nem dar a atenção necessária para pensar em coisas novas e interessantes (mais ou menos como esse próprio Scriti).

Em 2019 tentamos uma retomada, mas o problema ainda era o mesmo e não foi pra frente.

As pessoas no escritório e em círculos de amizade (até minha mãe) perguntavam "e o Preço do Litrão, hein?" e a única resposta que conseguia dar era um riso envergonhado e sem graça, com uma sensação de humilhação e até raiva quando a pergunta era feita.

Ou você se dedica, ou o negócio não vira, principalmente se você for crucial para a existência do projeto.

CONCLUSÃO

Durante anos, eu remoí (e ainda faço isso) os acontecimentos desses meses loucos com o Preço do Litrão. Não é incomum eu encontrar o Bruno e falarmos que, se tivéssemos nos dedicado mais, teria estourado e nossas vidas poderiam ter mudado.

Eu fielmente acredito que sim. Era uma ideia ótima, um público claro, um serviço claramente útil que chamava a atenção de qualquer pessoa que ouvia, mas faltou a dedicação necessária para que vingasse.

É difícil não sentir culpa, me perguntar se não perdi a única chance que teria na vida, mas cheguei à conclusão que um fator que é pouco falado na história das grandes empresas de tecnologia (até de propósito), é que as coisas só aconteceram porque foi uma união de sorte + ideia certa + momento certo.

Infelizmente, a realidade no momento não permitiu que o projeto fosse pra frente, mas eu carrego o aprendizado que tirei dessa época com muito carinho e tenho certeza que as coisas só acabam quando paramos de tentar.

Quero fazer um agradecimento especial à todas as pessoas que participaram dessa história, Bruno Oliveira, Vinícius Alcântara, Gregory Calabraro (que fez nosso logo lindo), Bruno Ghirello, Eduardo Coutinho, Ruan Cortes, Sabrina Andrade, Gabriel Andrade, Marcela Xavier e todo mundo que se envolveu e ajudou o projeto a acontecer (desculpa se esqueci alguém).

GALERIA

Aqui algumas fotos e prints de coisas legais que aconteceram.

Chamada na Pequenas Empresas, Grandes Negócios

Como era o mapa no site.


Conteúdo que mostra um pouco do app.


Nosso Facebook também era incrível com uma criatividade enorme nos memes:


Rolava muito forte os bastidores (e eu sem cabelo por estar virando a madrugada 3x por semana na época).



O famoso clipping.

Um dos melhores parabéns que recebi, com uma das equipes mais feras que eu já trabalhei.

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