Há quanto tempo Ele estava andando nesses corredores? Ele não lembrava como havia chegado ali, mas os quadros lhe eram familiares. Como não reconheceria os momentos da sua própria vida?

Ele passou por momentos da sua infância, uma época feliz. Viu seus amigos em situações que a mera lembrança devia despertar algo, mas não havia nada. No lugar de uma sensação de calor, de nostalgia por uma época que não voltava mais, só havia um buraco. Esse buraco apenas crescia e Ele não se recordava mais do que era viver sem um vazio constante no fundo de sua mente, ameaçando engolir tudo que por ali passasse.

O ar estava úmido e com um cheiro de bolor por algum motivo. Será que estava chovendo?

Ele caminhava, as mãos encostando nas molduras pesadas de madeira, sem ousar tocar nos momentos ali enclausurados.

Há quanto tempo ele procurava? O que ele procurava? Ele não sabia, mas tinha certeza que algo estava perdido.

Por fim, Ele chegou a uma porta amarela. A maçaneta redonda parecia se encaixar perfeitamente na sua mão. Ele se perguntava de onde conhecia isso enquanto entrava numa sala de aula.

Apesar da luz da tarde que batia forte pelas muitas janelas em uma das paredes, a sala estava gelada. Era sempre assim durante aquela época do ano.

Como Ele sabia isso?

Apenas uma das carteiras estava ocupada. Um garoto escrevia em um caderno, a concentração clara no seu rosto, nem se dando ao trabalho de olhar para ver quem acabara de entrar. A escrita era interrompida apenas por alguns segundos, apenas para recomeçar a escrever instantes depois.

- Garoto, o que você está fazendo? - Ele perguntou.

- O que você acha? - veio a resposta do rapaz, ainda sem retirar os olhos do caderno.

- Claramente você está escrevendo. Está estudando?

Mais uma pausa, a cabeça abaixada parecendo escutar uma voz distante. De novo, o lápis voltou a riscar o papel. Finalmente veio a resposta:

- Não, estou apenas anotando o que observo.

- E o que você está observando? - Ele se aproximou, sentando na carteira ao lado.

- As coisas mais importantes.

- E o que é mais importante?

- Tudo.

Mais uma vez o silêncio dominou o lugar. Os raios de sol podiam ser vistos claramente na poeira que pairava no ar. Algo ali era muito familiar.

- Quem é você? Qual o seu nome?

- Isso não importa.

- Como assim não importa?

- Não importa.

Mais uma pausa, dessa vez um pouco mais longa. Por que parecia que ele estava escutando? Era a posição da cabeça, um pouco inclinada? Eram os olhos levemente fechados?

- E o que importa?

- Tudo.

Se aproximando mais da cadeira, Ele tentou decifrar o que o garoto escrevia, mas não teve sucesso. Não reconhecia a língua.

- Não adianta, o que você procura não está escrito aqui.

- Mas você não escreve tudo que importa? Eu não sei o que eu procuro, mas pode ser que você tenha encontrado.

- O que você procura não está aqui.

- Por quê?

- Porque o que é importante para mim pode não ser importante para você.

- E o que é importante pra você?

- Tudo.

Frustrado, Ele levantou. Nunca tivera paciência muita paciência pra segredos e conversas enigmáticas. Mas aquele garoto lembrava alguém. Quem? Parecia que ele devia saber, mas o buraco na sua mente apenas crescia.

- Boa sorte com sua escrita e suas observações. Antes que eu me vá, qual o seu nome? Eu sinto que te conheço.

Pela primeira vez, o garoto tirou os olhos do caderno. Se era por terem acabado as páginas ou algum outro motivo, Ele não sabia, mas o garoto sorria.

- Isso realmente não importa. Mas você começou a observar o que importa.

- Eu vou continuar a minha busca. Gostaria de ir comigo?

- Apenas me deixe pegar mais um caderno.

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Ele andava pelos corredores. A temperatura havia caído. Os quadros mostravam momentos que ele se lembrava, ele sabia quem eram as pessoas ali retratadas, mas parecia que era a vida de outro alguém, como se fosse apenas um espectador olhando por uma janela. Era impressão ou as luzes estavam mais fracas também?

O garoto o acompanhava, os olhos brevemente se erguendo para observar os retratos nas paredes, e rapidamente abaixando para fazer mais uma leva de anotações.

- Sabe, esse dia em específico foi engraçado. Lembro que fiquei embaixo do sol o dia todo e não conseguia deitar de tão queimado. Mas não lembro com quem eu estava nessa viagem.

Que estranho.

- Isso não importa.

- Você só sabe dizer isso?

- Isso também não importa.

O corredor acabou em um portão com barras de ferro. Apesar de uma grande fechadura, estava destrancado. Estranho. Estranho? Por que seria estranho?

As luzes no cômodo estavam apagadas. Mas era possível ouvir... alguma coisa.

- Você também está ouvindo isso?

Ele sentiu o garoto acenando com a cabeça.

- Olá?

Mais uma vez aquele barulho. Ele conhecia aquele barulho, mas o que era? A temperatura tinha esfriado mais ainda, o frio tocando sua pele.

Dando passos curtos, Ele caminhou lentamente em direção à fonte daquele som que o incomodava.

- Eu acho que é alguém chorando? - Ele pensou em voz alta.

O barulho parou por um instante, apenas para recomeçar mais uma vez. Conforme ia se aproximando, ao coro das lágrimas se misturavam murmúrios que Ele não conseguia distinguir. De alguma forma, na sua mente, ecoava a frase "não aguento mais, por favor".

A figura encolhida na parede, a cabeça entre os joelhos, nem se deu ao trabalho de levantar os olhos.

Ela era familiar. Ele sabia que a devia conhecer de algum lugar. Mas de onde?

- Se lembre do que importa. - O garoto disse baixinho, nas suas costas.

Um pequeno clarão de uma chama inundou a escuridão. O garoto estava com uma vela. Isso só piorou a situação.

A pessoa no chão estava enrolada em um cobertor que não conseguia esconder uma pele repleta de machucados, dos mais diversos tamanhos e cores. A angústia na voz era palpável enquanto ela repetia a mesma frase.

- Não aguento mais, por favor. Eu não aguento mais.

Alguma coisa coçava no fundo da sua mente. Mas aquele maldito vazio não permitia que Ele se concentrasse.

Ele se ajoelhou. Tinha receio de encostar na criatura, medo de quebrá-la com o menor dos toques.

- Nós não vamos te machucar. Você está bem?

Sem interrupção nas lamentações. Ele tentou de novo.

- Está tudo bem agora, nós estamos aqui. O que aconteceu com você?

Nada.

Ele encostou levemente a mão no braço do homem deitado, que imediatamente se retesou soltou um gemido agudo de dor.

- Por favor, faça parar, eu não aguento mais.

Com todo cuidado, Ele se aproximou mais da criatura e a envolveu em seus braços. Quanto tempo ficou ali, Ele não sabia. Uma hora a vela se apagou e mesmo assim ele continuou, o ser expressando sua angústia e sofrimento com palavras e sons. E mesmo assim, Ele ficou ali.

- Venha, vamos sair daqui. - por fim Ele falou.

- Não tem como sair daqui. - a criatura respondeu, a voz baixa e rouca.

- Tem sim, inclusive o portão está destrancado.

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Eles caminhavam por um corredor escuro, bem diferente dos outros que uma vez Ele tinha visitado. As paredes estavam desgastadas, com buracos e rachaduras aparecendo.

Diversos quadros estavam rasgados ou borrados. Havia uma série de molduras vazias também. Sua mente vagava enquanto Ele caminhava. O que Ele estava fazendo ali mesmo?

Acompanhando o som dos seus passos, havia o barulho de um lápis arranhando o papel e o eco de uma lamúria baixa e constante.

Uma porta dupla de metal escovado os esperava.

Ele parou. Quem era Ele? Onde Ele estava?

O quarto em que entraram era completamente branco e liso. Muito bem iluminado, com certeza Ele teria dificuldade em saber o tamanho do espaço se não fossem pelas rachaduras que iam do chão ao teto, se espalhando em teias cada vez maiores.

No centro, estava um homem amarrado a uma cadeira, rindo suavemente.

- E quem são vocês? Podem vir. Eu aguento o que for. Mas será que vocês estão realmente aí?

Da última vez não tinha ninguém.

A risada voltou. Mas tinha algo ali que Ele não conseguia identificar. Parecia a tontura de quando você olha para o chão de um lugar muito alto. Algo estava na beirada.

- Você sabe, uma vez eu conversei durante dias com uma pessoa. Foi uma conversa interessante, apesar de meio unilateral. Entende, no fim das contas eu descobri que era minha sombra.

Dessa vez, a risada trouxe uma imagem de uma corda sendo esticada até o ponto da máxima tensão.

- Uma vez eu passei o ano procurando meus óculos. Não conseguia achar em lugar algum. Havia esquecido que eles estavam na minha cabeça o tempo todo. O problema é que eu nem uso óculos, então foi um desperdício.

- Você está bem? - Ele perguntou.

- Bem? O que é bem? Eu estou amarrado, então não estou bem. Mas veja bem, pode ser que as outras pessoas estejam bem por eu estar amarrado. Então eu não estar bem quer dizer que outras pessoas estão bem. Mas o que é bem? Quem um dia está bem? Quem já fez algo grande estando bem? Será que as pessoas estando bem por eu estar amarrado, na verdade, significa que elas não estão bem e eu estou bem por estar amarrado?

- Essa última parte não fez sentido.

- Isso não importa - disse o garoto. De alguma forma, Ele ouviu uma fascinação na voz.

- E o que importa? No fim, nada importa. Ou será que tudo importa porque nada realmente importa, então o que é importante é o que dizemos que é importante porque nada é realmente importante.

Ele se aproximou. As mãos e braços do homem estavam amarrados na cadeira por uma corda. O cabelo longo cobria seus olhos, mas a essa distância Ele podia ver um brilho naquele olhar. Havia algo queimando ali atrás. Algo familiar.

- Uma vez eu passei um mês tentando imitar um gato. Criaturas fascinantes, os gatos. Mais fáceis de imitar do que uma girafa. Nunca gostei muito da ideia de esticar o pescoço. Mas os gatos são fascinantes. Sabe o que eu descobri?

- O quê? - Ele perguntou.

- Que existem vários pontos do corpo que eu não consigo lamber.

Uma rachadura avançou na parede.

- Venha, vamos te tirar daqui - Ele falou, enquanto começava a trabalhar nos nós que prendiam o homem à cadeira.

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O que Ele estava fazendo ali, Ele não sabia. Ele estava acompanhado de 3 pessoas que Ele não conhecia.

As paredes lisas estavam cobertas de molduras vazias. Aquilo era para ser assim? Tudo que era possível ouvir eram passos, uma lamentação baixa, o lápis riscando uma folha e uma risada contínua.

Ele estava procurando alguma coisa? Ele não lembrava. Na sua cabeça estava apenas um grande vazio. E estava frio, muito frio. A cada respiração, o ar condensava na sua frente.

Por fim, eles pararam em frente a uma porta totalmente preta. A maçaneta brilhava, como se tivesse sido recém polida e nunca o contato humano a tivesse maculado.

Ele se aproximou, mas sua mão parou a centímetros do metal. Alguma coisa o impedia. O quê?

- Eu não sei o que eu estou procurando.

- Isso não importa. - o garoto respondeu, distraído com seu caderno.

- Se eu não sei o que eu estou procurando, como vou saber quando a encontrar?

- Isso é loucura - respondeu o homem de cabelos longos, como se a pergunta não fizesse sentido algum.

- E também não importa. - o garoto completou.

A criatura repleta de machucados apenas fungou, mas logo se envolveu com seu cobertor.
Ele se voltou para a porta. A sua mão ainda estava a centímetros da maçaneta. O vazio era completo. Alguma vez tinha existido algo no lugar desse buraco? O que ele estava procurando?

- E quantas vezes eu terei que procurar até achar o que importa? Quantas vezes terei que repetir até encontrar aquilo que procuro? Quantas vezes terei que atravessar novas portas?

Ele se virou para os seus acompanhantes, que o encaravam. O garoto o olhava, caderno fechado em sua mão.

Ele se virou para a porta. Respirando fundo, respondeu a si mesmo enquanto sua mão se fechava em volta da maçaneta e a porta se abria.

- Quantas vezes forem necessárias. Isso não importa.

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