a cidade e eu fomos amor à primeira vista. 

uma coisa curiosa sobre mim é que eu passei uma grande parte da minha vida estudando longe de onde eu moro. moquense do jeito que sou, problemas familiares, financeiros e de comunicação fizeram com que a maioria das memórias da minha infância fossem cruzando são paulo (da zona leste à oeste) diariamente até a casa da dona maria, minha avó, na freguesia do ó. 

o caminho era monótono: três retas apenas, retas que até hoje são traçadas (porém, com menor frequência). salim farah maluf, marginal do tietê e edgar facó. às vezes eu tenho a impressão de que eu aprendi esses três nomes antes de conseguir decorar o meu próprio. mas deve ser só impressão. 

lembro da minha mãe dirigindo o carro pelas avenidas com monotonia, com o aspecto de quem já estava acostumada, porém que mesmo assim, seguia cansada da rotina. nessa época ela tinha três empregos. os 40 minutos enquanto cruzávamos a cidade durante o horário de almoço eram os poucos 40 minutos que tínhamos juntas diariamente. ela sempre chegava tarde. incontáveis foram as vezes que morrendo de sono, eu esperava ela chegar de madrugada, na tentativa de somar mais 15 minutos naquele nosso tempo limitado. apesar da pouca vivência, éramos eu e ela juntas. sempre. 

ela dirigia com monotonia porque já estava cansada do caminho, da rotina. eu, por outro lado, com meus 4 anos de idade, achava tudo novidade. os carros, as pessoas, os motoristas, as motos que contornavam os carros como em uma dança, os prédios. era tudo tão grande, sabe? e eu era tão pequena perante isso tudo. 

eu reclamava do cheiro, claro. não há criança encantada com o novo que seja capaz de achar o cheiro da marginal agradável, não tem jeito. mesmo assim, isso para mim era insignificante perto da imensidão das coisas. eu queria conhecer, saber mais. não cansava de encher minha mãe de perguntas: e depois que a marginal acaba? tem o que? mais avenida? ela não acaba nunca? até onde ela vai?. minha mãe ria, eu seguia séria. 

um pouco mais tarde, fui apresentada ao centro de são paulo. conheci seu cruzamento mais famoso logo cedo, e com certeza alguma coisa aconteceu no meu coração ali mesmo, entre a ipiranga com a avenida são joão. tive a oportunidade de me apaixonar pelo ponto chic e seu bauru (o melhor de são paulo, é o que dizem e comprovam todos que até lá vão), até de conhecer a galeria do rock antes mesmo de eu saber do que se tratava. eu não entendia muito bem, mas eu gostava, principalmente da diversidade.

eu cresci (bastante) e na pré adolescência meu lugar favorito se tornou a avenida paulista. eu não podia ir à bares ou baladas, então a região da augusta ou consolação pouco me atraia. era a avenida paulista mesmo o que eu queria ver.

eu queria olhar pra cima e ver os prédios, andá-la de ponta a ponta com a certeza de que um era diferente do outro, que as pessoas que estavam dentro deles eram diferentes entre si, e que apesar da aparente unidade, tratava-se de uma pluralidade sem fim. 

à noite, cada janela iluminada era comparável à uma estrela no céu. um céu que nunca deixa de ser estrelado, afinal: essa cidade não para nunca. 

o meu ponto com tudo isso é: eu sou feliz por viver aonde eu moro. sou feliz de poder caminhar pelo centro de são paulo e ver que lá eu construí memórias que até hoje estão sendo plantadas, colhidas e guardadas. sou feliz pelos caminhos que foram traçados, as ruas que foram percorridas, os momentos que foram vividos em cada canto, região ou zona dessa cidade. 

esta talvez não seja a cidade dos poetas
mas com certeza também não é a cidade de qualquer um
é a minha cidade 
e eu não espero que você se apaixone por ela também,

eu só espero que você entenda.




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