Esse texto pode ter algumas palavras que eu selecionei com todas as forças da minha melancolia e podem deixar triste se você é sensível com perdas e com familiares. Ou os dois. 


Domingo foi dia dos pais, e também nesse mesmo domingo, perdi um parente querido meu, que também era pai. Esse texto, apesar do tema pesado, não vai ser triste, como se eu contasse toda a história e quisesse arrancar uma ou duas lágrimas do canto dos seus olhos. Quero que você reflita. Mas prosseguindo, eu acho egoísta desejar a vida àquele que só vive em sofrimento, então a morte se torna alívio, que pra mim, não é tristeza. Durante as celebrações e rezas que aconteciam no velório, eu me permiti andar pelo cemitério. Por mais que essa tenha sido uma data fúnebre pra mim, o dia era bem bonito, inclusive algum ou outro jazigo podia se enquadrar em fotos bem legais que eu tanto gostaria de tirar, mas obviamente não fiz por respeito.


E nessa breve caminhada, eu acabei entrando em 3 reflexões.


A primeira, sobre a brevidade da vida. Vi alguns túmulos infantis. Alguns vários, na verdade. Crianças que viveram ano, crianças que viveram mais, que viveram menos. E também vi túmulos dos anciões que viveram seus oitenta, noventa anos. Todos sob os famosos sete palmos. A reflexão surge no momento que se nota que a gente acha uma tristeza imensa quando recém nascidos morrem, porque eles ficaram pouco tempo aqui (também porque há ai uma quebra da ordem natural das coisas. A dor do pai que enterra o filho costuma ser mais incômoda e mais intensa do que o contrário, mas relevemos). Mas quem disse que o vôzinho que rega as plantas todo dia na frente da sua casa está aqui faz tempo? A gente não vive pra ver a terceira geração que sai da gente, quem será que começou essa história de que a criança que morre viveu pouco? Se as milenares sequoias falassem, com certeza elas iam concordar que é todo mundo uma criança. E se as pedras falassem, elas diriam o mesmo das sequoias. Sem entrar em nenhum âmbito científico, mas a terra é tão antiga que eu chego a perder minha referência de tempo se eu paro pra pensar. E se eu paro pra pensar é porque uma reflexão filosófica sobre o tempo está por vir, e não é a intenção (agora).


A Segunda, sobre como a maioria de nós se toca pela morte no momento em que acontece mas acabamos nos acostumando com a saudade de maneira que quase cai em esquecimento. Essa reflexão triste aconteceu quando eu vi inúmeros "túmulos" que nada mais eram do que um grande canteiro que tinha uma terra tão seca e morta que o Fabiano ia ter dó e a Baleia com certeza não ia conseguir cavar. Quando o de baixo desse túmulo morreu, deve ter acontecido toda aquela cerimônia e muitas lágrimas molharam as flores que tomavam aquele lugar como casa. Hoje, se não fossem os 5 punhados de ervas daninhas, as formigas que passavam e os passarinhos que vira e mexe pousavam, não haveria vida alí. O que um dia foi uma cruz, alguma estatua pequenininha e uma plaquinha com o epitáfio foi substituído por terra, uma outra cruz de madeira que não conseguiu se prender no chão, seco, uma estatua de um anjinho, que pelas ações do tempo acabou em cacos, e uma outra plaquinha, dessa vez informando qual era o o túmulo e qual era a quadra. Virou um número esquecido, até que um dia alguém precise tocar ali e retirar o caixão com a ossada pra vender pra algum outro cair morto lá.


A terceira, sobre como a gente não valoriza quem tá aqui. A gente tem uma data pra exaltar cada um dos nossos pais. Uma data. Um pai e uma mãe que te criaram e tomaram todos os cuidados do mundo pra ter um dia no ano que você acha digno dar um presente e falar "te amo". Muita gente vê seus pais todos os dias, e não fala direito. Uma hora eles vão embora e você vai continuar aqui (é o que se espera) e os 20, 30, 40 dias dos pais que vocês passaram juntos são nada. Acorda hoje, olha pra sua família, se reserva pra tomar um café, fumar um cigarro, jogar uma partida de vôlei, seja qual for a atividade, faça com eles. Sempre serão seu porto seguro, sempre trarão lembranças boas em momentos de mau agouro. Depois de exaltar a família, se reserve à pensar no seu ciclo de amizade atual. Estando você no ensino médio, na faculdade, trabalhando, aposentado, analise as pessoas a tua volta. Simule a facilidade que as pessoas tem de sumir da sua vida, e sinta a pontinha de dor que vem. A vida é feita de ciclos que se encerram e se iniciam, e é nesses ciclos que as pessoas ao seu redor se inserem. Agora reserva uma cerveja com tua amiga. Uma festa com seu amigo. Um beijo em quem tem faz companhia nos dias e noites. Em geral, não regule o "eu te amo".


Pra mim, essa falta de afeto é uma dos problemas do século e cada dia mais eu sinto que acham plenamente aceitável que as pessoas sejam difíceis de serem amadas. Mas não são, o amor que não é exposto. Não é só o "eu te amo" do casamento, do namoro. É o "eu te amo" pro amigo, pro primo, pro tio, pro seu vô e vó, pro seu cachorro. Qual o problema de se amar todo mundo, se esse for um sentimento genuíno? Amar não gasta, amar não custa. Não precisa nem ser dito, é só dar um abraço que a gente sente quando tem amor. Não tô dizendo pra você dizer eu te amo pra todas as pessoas, a gente tem amigos e não amigos. O que eu digo é: Se você acha que ama, ame! Não esconde o que você sente! Não se priva de ter empatia e amor pelo próximo, que isso contribui para que o dia-a-dia, que tem sido cada dia mais difícil, fique mais leve e palpável.


Quem já leu algo do que eu escrevo sabe o quanto essas últimas frases não são comuns nos "meus textos". Essa reflexão realmente acabou mexendo comigo um pouco mais do que devia, mas, pelo menos nos próximos dias, fez com que meu coração ficasse um pouco mais molenga do que ele é. Se eu tocar de leve o seu, fiz minha parte.


Quando me encontrar me dá um abraço, e passe a palavra adiante.





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