(texto publicado originalmente em 25/04/2014)

27 de abril de 2014. Essa data marcará a despedida do Sport Club Corinthians Paulista do estádio mais charmoso da capital paulista: o Pacaembu. Numa partida com o Flamengo, o clássico com as duas maiores torcidas do país. Grandiosidade que o Pacaembu sempre mereceu.

O Pacaembu já abrigou os quatro grandes de São Paulo, com igual maestria. Aninha o Santos quando sobe a serra, é casa para o Palmeiras, que termina as obras do Allianz Parque (antigo Palestra Itália), e acolheu o São Paulo quando o Morumbi não podia ser utilizado. Mas, indiscutivelmente, sempre foi a casa do Corinthians. O time que sempre foi chacota por não ter estádio, de fato, sempre teve um estádio. E sempre terá.

Se eu estivesse “recitando” esse post, estaria com a voz embargada. Escrevo, naturalmente, com lágrimas nos olhos. O Pacaembu sempre abrigou o meu maior amor, foi casa para minhas alegrias, receptor das minhas tristezas. De uma certa maneira, o Pacaembu era uma extensão da minha casa. O quintal onde eu ia, não para jogar bola, mas para ver quem realmente sabia jogar. Um dos palcos do maior espetáculo esportivo da terra.

Lembro-me perfeitamente da minha primeira visita ao Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho: era dia 26 de setembro de 2004, eu ia com meu padrasto assistir Corinthians x Goiás, jogo válido pelo Campeonato Brasileiro. Eu tinha míseros 13 anos, e, como sempre fui um garoto nerd, estava apreensivo, afinal era meu primeiro contato presencial com o futebol. A paixão veio desde sempre, desde o berço. Meu pai, pelo que minha mãe conta, foi um dos caras mais corintianos que já existiram. Aparentemente, eu sigo seus passos.

Cheguei na Praça Charles Miller, acompanhado do meu padrasto (e, certamente de meu pai). Na época, as barracas de comida ainda eram permitidas na praça, então comemos um sanduíche de pernil ali na frente do portão principal. Foi quando eu olhei a entrada do estádio, como o religioso que olha os portões do Céu. Eu me vi num templo, e tudo ali dentro era nossa religião. Era Corinthians.

O Corinthians entrava em campo com: Fábio Costa; Valdson, Betão, Anderson; Fininho, Rosinei, Edson, Wendel, Fábio Baiano; Alberto, Gil; Camisas brancas, calções pretos, meias brancas. Ali eu senti, pela primeira vez, o que era amor de verdade. Gritei com todas as minhas forças o hino do meu clube. Minha voz ecoava pelas pilastras do estádio, e eu me sentia no topo do mundo. Eu me senti em casa, em meio a tantos como eu. Tantos apaixonados, tantos loucos… ali era, de fato, minha casa. Meu templo.

O jogo foi tenso, não tinhamos um bom time na época. Mas lembro de ver, da arquibancada verde, Fábio Baiano acertar um chute de fora da área. Ele estava mancando em campo, por uma contusão na coxa, acredito. Mas acertou um belo chute aos 43' do segundo tempo, e nos deu a vitória. Poucas vezes na vida eu me senti tão feliz.

Chorei.

É inevitável lembrar do que vivi com o Corinthians nesse estádio. Guardo, até hoje, todos os ingressos. Já passei raiva, já sorri, já chorei. Vi derrotas, vi vitórias, vi jogos ruins e jogos bons. Muitos famosos e muitos desconhecidos. Muitos amigos. Muitos amores. Muitos dramas. Já reverenciei ídolos, como Marcelinho, que gritava que o Corinthians era sua “segunda pele”. Já ofendi jogadores que nunca deram o devido valor pelo que vestiam. O Leandro escreveu aqui sobre estar de mudança, e as lembranças que encontramos no processo. E eu me identifico, ainda mais nesse caso. Todos os sentimentos voltam, afloram. O ingresso não é só um cartãozinho de plástico: é uma representação de um dia que vivi, e que hoje bate com saudades no coração.

O Corinthians, particularmente, deixa lá quase 1000 vitórias. Deixa a maior alegria de sua história, a Taça Libertadores da América, naquele 2x0 contra o Boca Juniors. Deixa o “jogo da subida”, aquele 2x0 contra o Ceará. Deixa decepções, como as eliminações para Flamengo e River Plate. Mas deixa, acima de tudo, o coração. Sempre que me perguntarem “onde é a casa do Corinthians?”, com muita alegria no coração, responderei: será eternamente o Pacaembu.

Domingo eu estarei no Pacaembu. Estarei para ovacionar minha maior paixão, e para dar adeus à casa que sempre me abrigou. O Pacaembu, no dia 27, perderá seu tom mais bonito de preto e branco. Ficará menos “maloqueiro”, menos “sofredor”. Mas nenhum pouco menos corintiano. Obrigado, templo! Obrigado e até um dia, Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho!

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