Sabe aquela sensação incômoda de não saber o que falar misturada com uma euforia inexplicável ao estar do lado de uma pessoa? Então, tem gente que chama de "estar apaixonado", mas eu particularmente chamo de mau pressentimento. E tô sentindo ele agora...

    Tudo aconteceu bem rápido, numa hora eu tava terminando uma cobertura ao vivo, depois eu tava correndo por entre balas de borracha e granadas de gás carregando uma senhora de uns 70 e tantos anos com uma garota de uns 20 anos agarrada na minha camiseta pra não me perder.

    Coloquei a senhora dentro da van da emissora e fiz o motorista deixar a gente no hospital, sabendo da dor de cabeça que eu podia arrumar por isso. Quando chegamos lá, falei pro pessoal voltar e que eu ficaria com a senhora até que algum parente chegasse, pedi pro Rubem explicar na redação o que tinha acontecido e que amanhã cedo eu estaria lá pra dar qualquer esclarecimento que fosse necessário. Ele concordou e disse que nos víamos amanhã. "Se eu ainda tiver meu emprego, claro" disse no meu tom saindo um pouco mais condescendente do que o de costume.

    Depois de me despedir do pessoal, volto para o corredor onde a Ana Beatriz estava sentada. Eu disse que ela podia voltar pra casa, mas ela disse que não deixaria a senhora de lado. Ela me disse seu nome na enquanto estávamos na van à caminho do hospital. Ela também era jornalista, recém formada, 22 anos, tinha a típica ingenuidade de que podíamos mudar o mundo uma manchete de cada vez e só não era mais engajada por ser uma pessoa só

    Conversamos um bocado enquanto esperávamos notícias da Dona Jura, a senhora que tiramos do meio da bagunça. E conforme ela ia me contando sobre a vida e os ideais dela, ia me subindo o clássico nó na garganta dos garotos quando tão na frente de uma moça bonita no bar. Comecei a me repreender mentalmente por estar deixando de ser apático justo agora e depois me repreendi por estar tão disperso na minha cabeça que não estava prestando atenção nela. Não conseguia tirar os olhos dos lábios dela por mais que eu tentasse, até que o médico que estava atendendo a dona Jura interrompe a conversa dela de como devíamos voltar para o jornalismo de guerrilha e ter um papel ativo para reverter o cenário político atual.

    "Boas notícias", diz o médico, "Não houve nenhuma fratura, apenas uns hematomas e umas escoriações, ela já está sendo medicada e provavelmente vai ter alta ainda hoje. Vocês são os responsáveis dela?". Respondemos que não e que havíamos ligado para um dos filhos dela e que ele estava a caminho. Ele então se vira para ela e diz "Entendi. Bom, de qualquer forma, você e seu marido fizeram um bom trabalho trazendo ela pra cá". Ele então dá meia volta e vai em direção do corredor, enquanto eu e Ana trocamos um olhar meio constrangido e que beirava o cômico, e então começamos a rir. Eu nem lembrava da última vez que eu tinha gargalhado daquele jeito. Alguns minutos depois, o filho da dona Jura chega e nos agradece por ter trazido a mãe dele pro hospital e que ele sempre diz pra mãe que ela não tem mais idade pra esse tipo de coisa. Nós nos despedimos dele e na saída do hospital trocamos telefones antes de cada um tomar seu rumo. Eu sinceramente não faço ideia do que aconteceu essa noite.

    Como o próprio título diz, nem se empolguem, vai dar errado. Sempre dá errado...

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