"Mas você falou que ela era só uma moça do trabalho pai", diz a Jô com a voz embargada enquanto comemos uma pizza (às vezes que acho que sorvete e pizza resolveriam as crises do oriente médio se escolhessem os sabores certos, porque às vezes eu acho mais fácil resolver a treta do estado palestino do que acalmar minha filha), e então me olha com algumas lágrimas nos olhos dizendo "Eu não quero outra mãe".

    A verdade é que desde que eu me divorciei, a Maria Júlia pouco se fez presente na vida da Jô: dava uns passeios de fim de semana, levava pra ver os avós no Paraná no final do ano, saía com ela na semana do aniversário... Esse tipo de coisa. E quase sempre tinha que deixar a Jô em casa correndo por causa do "amigo" dela. Eu falei pra ela respeitar a inteligência da Jô e dizer que tava tendo alguma coisa com o chaveirinho bonitão dela mas só serviu pra ela armar um barraco comigo dizendo que eu tava tentando controlar a vida dela depois do divórcio. Percebi que era melhor deixar pra lá, mas de qualquer forma, a Jô descobriu pouco tempo depois quando ouviu a mãe falando no telefone. Aparentemente faro investigativo é genético.

    "Jô, ela não vai ser sua nova mãe. Ela é só uma moça que o papai conheceu no trabalho e a gente tá conversando. Ontem nós só fomos almoçar, nada demais". Aqueles olinhos castanhos dela pareciam estar sondando até o último pedaço da minha alma quando ela disse "Tudo bem então, mas se você gosta dela, eu tenho que ver ela primeiro!". Eu dou risada e falo que não tinha problema, então peço a conta da pizzaria e vamos embora.

    Assim que chegamos em casa, meu telefone toca. Eu atendo e ouço a voz do Rubem do outro lado da linha dizendo que eu tinha sido escalado pra cobrir um plantão sobre uma manifestação de estudantes que tinha todos os ingredientes pra virar um caos. Ele diz que mandaram os detalhes pra mim por mensagem e que a van da emissora estaria no meu prédio em meia hora. Subo correndo com a Jô, ponho ela na cama e tomo uma ducha rápida enquanto vou lendo o briefing da cobertura. Aparentemente o presidente quis indicar o reitor da USP e os alunos não curtiram nada (não posso culpá-los, se colocassem um pastor evangélico pra reitor da minha universidade eu ia estar muito puto também). 

    Meu interfone toca e o porteiro avisa que a van chegou. Dou um beijo de boa noite na Jô e prometo que conto tudo amanhã de manhã, pego meu casaco e desço pra portaria pensando sobre como os últimos dias tinham sido agitados e em como eu estava torcendo pra não ir parar no hospital carregando uma senhorinha que tomou uma bala de borracha esta noite. Entro na van e cumprimento os rapazes da equipe e vejo como o Rubem está radiante. "Aquele papo ontem me deu uma boa ajuda, seu Ozzy, queria agradecer de coração por ter me dado essa força." Digo que não sou tão mais velho assim pra ser chamado de "Seu Ozzy" e peço pra eles me falarem se teve mais alguma novidade sobre as manifestações. Eles me disseram que os estudantes então indo em direção ao largo do São Bento e que a tropa de choque da polícia tava esperando eles lá. Um isqueiro e um estopim, só falta alguém acender o fogo...

    Quando chegamos, vejo que já tem outras vans da imprensa no local se preparando pra pegar imagens e fazer transmissões ao vivo, além de outros repórteres escrevendo e fazendo perguntas. Daí eu vejo uma figura conhecida no meio da multidão. Cabelos pretos amarrados em um coque e um par de olhos verdes atentos à tudo que está acontecendo em volta. Ana se movia com uma leveza quase como se fosse uma bailarina num grande palco, passando pela muvuca da imprensa sem nem se abalar. Porra, acho que eu tô apaixonado.

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