Acordei 6h da manhã na segunda. Meu primeiro dia de jornalista de rua desde que me formei. Acordei meia hora antes do meu despertador extremamente empolgado, pulei da cama, fui fazer café e fiz panquecas de chocolate pra Joana (Joana D'Arc Matveev é a minha filha de 10 anos que eu comentei mais cedo. Eu não ia deixar a maldição do nome ruim morrer em mim, apesar de Matveev ser meu sobrenome de verdade). Estava verdadeiramente surpreso pelo meu entusiasmo. 

    Quando ela acordou e chegou na cozinha, o sorriso que ela abriu ao ver uma mesa cheia de panquecas foi de aquecer o peito. Ela me perguntou o porque daquilo, sendo que não era aniversário dela. Disse que queria fazer um agrado e agradecer por ela ter me feito acordar pra vida.

    Depois do café, ajudei ela a se arrumar pra escola e coloquei ela na van. O dia estava relativamente bonito, pra quem está acostumado com o sempre cinza de São Paulo. Quando o relógio bateu 8 da manhã, peguei as minhas coisas, desci pra portaria do prédio, respirei bem fundo e disse "Hoje vai ser o meu dia". No primeiro passo pra fora do prédio, um relâmpago corta o céu com um barulho ensurdecedor. Em questão de dois minutos a água já atingia a altura do joelho e eu só estava esperando Noé passar com a sua arca no meio do Tatuapé.

    Voltei pra casa conformado com a derrota. Arquimedes, meu cachorro estava me esperando na porta balançando o rabo quando cheguei. Fui lavar a louça do café e colocar comida pra chinchila da Jô. Ela muda o nome desse bicho de tempos em tempos, então eu me acostumei a chamar ela só de chinchila mesmo.

    A chuva só foi dar trégua la pelas 11h, comi o resto das panquecas e saí pra tentar achar alguma reportagem que fizesse meu dia menos inútil. Dois quarteirões depois de casa eu encontrei Manu, um amigo de faculdade que estava acabando de voltar da Índia. Ele me chamou pra tomar uma cerveja e eu aceitei pra ter uma desculpa pra não fazer nada.

    Sentados no bar, contei de como estava minha vida e da minha decisão estúpida de voltar pras ruas. Ele disse que isso era o que eu precisava (aparentemente todo mundo sabe o que eu preciso melhor do que eu). Manu é correspondente diplomático da Globo no oriente (em parte pela sua competência, em parte por ser filho do dono de uma multinacional Indiana estabelecida aqui). Ele perguntou em qual área eu estava querendo entrar e eu respondi que talvez política, área em que me especializei na graduação e que tinha um certo interesse.

    "Você não muda mesmo não é? Nunca querendo sair da zona de conforto, assim você não vai a lugar nenhum Ozzy". Argumentei que estava fora a muito tempo, na pior das hipóteses era só pra recomeçar. Ele então me lançou um desafio com um olhar um tanto quanto maldoso: "Se você conseguir uma reportagem de primeira página essa semana ainda, eu dou uns telefonemas e te coloco lá dentro. Mas acho difícil se você não sair desse bar."

    Então ouvimos uma derrapagem seguida de uma batida. Saímos correndo pra ver o que era e eu me senti até mal pela desgraça alheia.

    Um senador completamente alucinado saindo de cueca de sua BMW batida, várias notas saindo de uma maleta que estava aberta no banco de trás do carro, manchas de sangue no para-brisa do carro e duas mulheres que com certeza deviam ser prostitutas de luxo tentavam fugir desesperadamente do local carregando o máximo de dinheiro que elas conseguiram juntar.

    Peguei minha câmera e comecei a fotografar tudo. Disse para Manu "Acho que você pode começar a fazer umas ligações" enquanto fotografava a cena que parece ter saído da mente de um louco. Ele me respondeu num tom resignado "Eu não acredito que você conseguiu isso".

    Olhei pra cara dele tentando deixar o mais evidente possível o deboche no meu meio sorriso e no meu tom de voz "E nem tá na hora do almoço ainda"

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