"Eu não vou discutir isso com você agora Jô", eu disse pensando em como eu cheguei nesse ponto da minha vida em que estou tomando um esporro da minha filha de 10 anos por ter conversado com outra mulher as 2h da manhã. "Já passou muito da sua hora de dormir e amanhã você tem aula, já pra cama.". Joana me olha com os olhos marejados e diz "Mas paaaaaai, você disse que ela era só uma moça do trabalho e...", sei muito bem que se eu deixar ela terminar essa linha de raciocínio, eu nunca mais vou ter paz pra conversar com a Ana, então uso a tática suprema dos pais (e que eu odiava quando era usada comigo): "E nada Joana, já pra cama, amanhã a gente conversa".

    A Jô sai andando batendo pé pelo corredor de tacos que leva até o quarto dela e então bate a porta. Eu sinceramente nunca achei que tomaria uma bronca da minha filha por causa de uma mulher, principalmente pelo fato que desde o meu divórcio com a mãe dela, eu nunca tive muita intenção de me aproximar de outra pessoa. Vou pra varanda do apartamento pra fumar um cigarro e me lembro de como a vista é bonita e como foram pouquíssimas as vezes que eu parei pra prestar atenção nela. Começo a pensar no que poderia estar acontecendo e meu coração dá uma leve acelerada, então eu chacoalho a cabeça, apago meu cigarro e vou dormir. O dia provavelmente vai ser bem longo amanhã.

    Chegando na redação, sou recebido com comprimentos por ter ajudado a dona Jura e elogios pela coragem, mas não consigo dar muita atenção porque as únicas coisas que estão na minha cabeça são a maneira fria que a Jô me tratou hoje de manhã e o almoço com a Ana mais tarde. Carlos me chama pra me parabenizar sobre ontem e me fala que isso é o que se espera de um jornalista de verdade, e que talvez ele estivesse enganado sobre mim. Enceno um sorriso e volto pra minha mesa.

    Esperar o tempo passar foi excruciante, tenho que admitir, e minha cabeça não conseguia parar de remoer tudo que podia dar errado nesse almoço a ponto de eu cogitar inventar alguma coisa pra cancelar ele. Quando estava decidido a fazer isso, meu celular vibrou com uma mensagem dela, dizendo que estava ansiosa e que podia sair daqui 30 minutos. Decido aceitar que vai dar tudo errado mesmo e saio pro restaurante. Seja o que Deus quiser (apesar de eu nunca ter acreditado muito nele).

    Ana chegou uns 10 minutos depois de mim no restaurante, nos cumprimentamos e vamos pro balcão onde um português de bigode nos cumprimenta e pergunta o que vamos querer. Ana pede um prato de bife com fritas e eu vou no mesmo, torcendo pra ela conhecer o lugar e saber o que estava fazendo. "Se tem uma coisa que eu definitivamente gosto de ter saído da faculdade, é poder ter um almoço que não se resuma à uma coxinha e um refrigerante" ela brinca, amarrando o cabelo com um elástico que ela carregava no pulso. O cabelo dela é preto e ondulado, criando um contraste muito interessante com a pele clara e os olhos verdes dela. Ver essa cena me faz perguntar mais uma vez o que estava acontecendo.

Todo o nervosismo que eu carreguei da redação pro restaurante sumiu em 5 minutos de conversa, e em pouco mais do que isso eu já tava bombardeando-a com informação sobre a minha vida. Percebo que estou falando demais e me desculpo por isso, só pra ela sorrir e dizer que estava adorando e nessa hora percebo que estou corando. Nossos pratos chegam e continuamos conversando enquanto comemos um prato que eu preciso reconhecer que estava muito bom. Quando acabamos, olho meu relógio e percebo que meu horário de almoço tá quase no fim e que eu preciso voltar pra redação. Sinto uma frustração enorme por não poder ficar mais tempo com ela e volto pro trabalho com a pergunta "o que está acontecendo?" martelando ainda mais forte a minha cabeça.

    Não aconteceu mais nada que valha a pena contar no resto do expediente, enquanto pegava o carro pra ir embora, lembrei que a Jô provavelmente preferiria ir ao dentista do que falar comigo, mas tento respirar fundo e pensar num jeito de acalmar a fera. Quando ela sai do treino de tênis e me vê na porta, ela ameaça virar a cara, mas para quando vê o potinho desnecessariamente caro de sorvete na minha mão. Entramos no carro e ela diz "Você não pode me comprar com sorvete toda vez que eu tô brava", sorrio pra ela e digo "Não faço ideia do que você está falando". Realmente, minha filha de 10 anos consegue me assustar mais do que qualquer outra mulher.

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