Meu chefe não ficou muito feliz de perder o novo repórter. Ainda mais depois de ele ficar um dia no cargo com uma matéria publicada. Acho que ele entendeu o porque de eu estar saindo, até ofereceu um lugar para críticas gastronômicas esporádicas. Algo me diz que ele estava extremamente puto, mas ele disfarçou bem.

    Chegando no novo emprego, fui apresentado pra uma porrada de gente que eu sempre admirei na faculdade. Dentro de mim tinha uma voz explodindo de alegria dizendo "É isso, finalmente vou trabalhar com esses monstros, agora eu vou ser um jornalista de verdade!!". Pouco tempo depois, uma outra voz fez questão de silenciar ela dizendo "Nem se anima, vai tudo dar errado. Como sempre"

    Nesse misto de alegria e pessimismo, me mostraram minha área de trabalho e me apresentaram pra minha supervisora. O nome dela é Magda, ela foi bem gentil e disse que eu tinha feito vários fãs por ter conseguido deixar o Manu irritado. Ele chegou na redação cuspindo veneno e tomou uma grandessíssima comida de toco do redator chefe, que fez questão de lembrar ele que não era só porque o papai dele coloca dinheiro lá dentro que ele tem direito de mandar alguma coisa.

    Demorei um pouco pra me ambientar: minha mesa era muito maior que no antigo jornal. A única coisa que me veio na cabeça foram as palavras de um professor da graduação. "Quanto maior a sua mesa, maiores vão ser as cobranças". Saudades do professor Walter. Foi um dos melhores professores que já tive. Me senti extremamente culpado quando desejei mal pra ele por ter tirado uma nota baixa e ele morreu de infarto fulminante no dia seguinte. 

    Magda me apresentou todos os figurões da redação e disse que num primeiro momento, eu acompanharia algum deles. Não que duvidassem da minha capacidade, mas era uma maneira de avaliarem meu trabalho. Em outras palavras: você entrou aqui por causa do playboyzinho indiano e não vamos dar algo importante pra um zé ruela que pode muito bem ser um semi-analfabeto com contatos. Agradeci, disse que me esforçaria o máximo e me despedi pra ir almoçar (sim, esse tour pela redação durou mais ou menos umas 4 horas). 

    Passei na escola da Jô, levei ela pra almoçar num dos restaurantes favoritos dela pra comemorar a ocasião. Joana deve ser a única criança do mundo a gostar de macarrão com brócolis gratinado. Não sei de onde veio isso, porque nem eu nem a mãe dela gostávamos, mas depois de tanto tempo acompanhando ela nesse macarrão, comecei a desenvolver uma certa simpatia pelo brócolis.

    Ela me contou como foi legal a manhã na escola. Como ela contou pra todos os amiguinhos que o papai tinha ido trabalhar na globo. Ela me disse que uma das crianças ficou triste porque o Willian Bonner era o adulto favorito dela e não queria que ele saísse. De verdade, não faço ideia do que tá acontecendo com as crianças de hoje em dia.

    Depois de um pote incrivelmente caro de sorvete, deixei ela na escolinha de tênis onde ela passaria uma parte da tarde. Depois que a aula dela acabasse, ela ia atravessar a rua pra ficar na biblioteca até que eu saísse do trabalho. Fico feliz que ela desenvolva esse gosto pela leitura desde cedo. Se continuar assim, não vou ter que me preocupar com ela gastando dinheiro em drogas quando ficar mais velha.

    De volta à redação, escolhi o colunista de política do jornal pra ficar debaixo da asa. Ja era o que eu estava pensando em fazer de qualquer forma, além do fato do atual cenário do país ser um prato cheio pra isso. Ele era um senhor de 72 anos, meio barrigudo mas extremamente ativo. Sua mente era tão rápida quanto os dedos na hora de digitar, e parece que ele já chegou na idade em que se tem o direito de ter uma língua afiada.

    O nome dele era Carlos, carioca da gema como eu, é repórter desde 1967, preso pela ditadura. Apanhou e foi torturado no DOI-CODI de São Paulo e não tem paciência nenhuma pra ouvir "muleques mimados que nunca tomaram uma bicuda na cara" dizendo que a ditadura só pegava terrorista. Reza a lenda que ele era terrorista mesmo, mas ninguém tem coragem de dizer isso abertamente.

    Quando cheguei na sala dele, antes de poder dizer um "boa tarde'' ele disparou: Tá tendo movimentação na rua hoje e eu tô velho demais pra ir pro meio da muvuca, vai lá e vamos ver se você é tudo isso que dizem ser". Virei de costas e saí sem falar um A.

    Passei na minha mesa pra pegar as minhas coisas e fui em direção ao elevador. Magda me viu saindo e perguntou pra onde eu ia. Respondi: "Ver se eu sou realmente tudo isso pra responder aquele gordo comunista". Porta do elevador fecha. Minha primeira saída triunfal no emprego justo no primeiro dia.

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