Assim que me viu, Ana veio correndo na minha direção e me deu um abraço. Ela disse que tava torcendo pra me ver aqui e que eu tinha chego em boa hora e que as coisas provavelmente iam esquentar. Minha vida tá quase fácil demais: uma reportagem caindo no meu colo me garantindo um emprego novo e duas manifestações grandes em dois dias seguidos pra cobrir. Que o oligofrênico que tá na presidência tá favorecendo só algumas pessoas é senso comum, mas não imaginei que eu seria um deles.

    O plantão acontece sem nenhum imprevisto, já que com toda a repercussão do que rolou ontem a polícia provavelmente recebeu ordens pra não gerar uma segunda zona de guerra em tão pouco tempo. Os manifestantes tomaram todo o largo São bento e começaram a proferir seus gritos e palavras de ordem, pedindo o fim das intervenções do presidente na educação superior pública. Aproveitei para escrever a matéria que seria publicada no dia seguinte e entrevistar alguns dos estudantes que estavam lá. Num dado momento as coisas quase esquentaram, mas a organização do protesto conseguiu segurar os ânimos e a polícia não precisou intervir., depois de um tempo os manifestantes então tomaram a direção da Luz onde aconteceria a dispersão.

    Apesar da decepção sutilmente estampada no rosto de uma jornalista recém saída da faculdade no rosto da Ana, concordamos que estávamos bem sem ter que levar outra senhora pro hospital. Não faço ideia do porque, mas achei que seria uma boa ideia perguntar se ela não queria fazer alguma coisa, e superintendentemente ela topou. Disse que tinha um barzinho aqui perto e que ela adorava. Me despedi do pessoal e fui pra lá com ela, conversando sobre como essas intervenções iam acabar acabando com uma das poucas coisas boas que tínhamos no Brasil.

    Chegando no bar, sentamos numa mesa e um garçom veio nos atender. Era um lugar bem aconchegante: piso de lajota, mesas e cadeiras de madeira e vários quadros de futebol e recortes de jornal nas paredes, além de placas de veículos de vários lugares. Ana perguntou se eu queria comer e eu disse que já tinha jantado, ela então pediu um bauru pra ela e uma cerveja pra nós dois. Ela disse que costumava frequentar esse bar com as amigas da faculdade e que o dono era pai de uma das meninas da sala dela. Começamos a conversar sobre nossas experiências durante a graduação e ela me mostrou um currículo invejável: primeira aluna da turma no vestibular, sempre engajada em movimentos estudantis, presidente da comissão de formatura e uma das melhores atletas da faculdade. Confesso que fiquei até com vergonha de contar como tinha sido a minha faculdade e como eu tinha sido um zero a esquerda.

    Ela me contou como tinha saído de uma família de metalúrgicos de São Bernardo pra fazer jornalismo na ECA da USP e como ela tinha chorado na formatura dela ao mostrar o diploma pros pais. Ela disse das festas que foi no porão da São Francisco e dos bloquinhos de carnaval que ela gosta e não perde nenhum ano. Contou de como descobriu o amor por uma escola de samba depois de entrar na faculdade e de como a sensação de desfilar no Anhembi era única. E eu tava lá, bebendo cada palavra que ela dizia, com um sorriso bobo no rosto como se fosse um adolescente apaixonado.

    O lanche dela chegou na segunda garrafa de cerveja, e pela expressão de felicidade, parecia que nosso almoço tinha sido a última coisa que ela tinha comido. Ela deu uma mordida no lanche e acabou ficando com molho no nariz me fazendo rir, ela então perguntou o que tinha acontecido e depois que eu contei, veio um sorriso tímido seguido de um pedido de desculpas. Disse que não tinha o porque e continuamos conversando.

    Um lanche e 4 cervejas depois, chegamos a conclusão de que era hora de ir embora. Pagamos a conta e fomos andando até a estação de metrô que já estava quase fechando. Ela me perguntou onde eu morava e eu disse que era no Tatuapé, próximo da estação de metrô,e então ela disse que tinha uma amiga que morava na região e que fazia tempo que ela não visitava. Em seguida ela disse que morava na Vila Prudente, e o quanto estava feliz do seu primeiro apartamento. "Ainda faltam algumas coisas nele, mas já tá ficando com cara de casa" ela disse, e comentou que estava com dificuldade de arrumar um pintor que não cobrasse um absurdo e eu comentei no reflexo que tinha pintado as paredes do meu apartamento. Ela me olhou com cara de surpresa e disse que ia me chamar pra ajudá-la qualquer dia. Dei risada e disse "Sem problemas".

    Acompanhei ela até o embarque para a linha azul, ela me abraçou e disse que tava gostando dos encontros acidentais que estávamos tendo. Nos despedimos e eu então fui pro embarque da linha vermelha. Entro no vagão e me apoio na barra que fica no teto, encosto a cabeça nos braços e tento clarear a cabeça pra entender o que tava rolando. 48 horas foi o que precisou pra minha vida dar essa virada toda. E 24 horas foi o que a Ana precisou pra me deixar apaixonado por ela

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