Na pressa de sair da redação, liguei pra dona Vilma, a bibliotecária que trabalha na biblioteca que eu e a Jô frequentamos e pedi pra ela levar a menina pra casa. num acaso enorme, descobri depois de 4 anos frequentando a biblioteca descobrimos que a senhorinha simpática que sempre recebia toda a empolgação da Jô com um sorriso morava no mesmo prédio que a gente.

    Com toda a delicadeza do mundo, ela me perguntou onde eu estava indo e eu respondi que estava indo fazer a cobertura da manifestação que tava rolando agora. Depois de um pequeno suspiro ela disse com a voz doce de uma vó que te recebe pro café com bolinho de chuva: "A seu Ozzy, se um dia você quiser sair pra um jantar com alguma moça, pode deixar que eu cuido da Jô. Seria ótimo pra ela ter uma mãe em casa"

    Agradeci e disse que ela podia ficar tranquila que eu deixaria. Desde que eu me separei da minha ex mulher, o mais próximo que eu cheguei de um encontro foi quando a Jô convidou a dona Vilma pra jantar em casa.

    Voltando ao papo dos acasos, mais um interessante: Vilma também era o nome de uma senhorinha que morava na rua de casa quando eu era criança. Eu sempre gostei muito dela, apesar de a empregada de casa falar que era pra ficar longe dela por ela ser louca. Tempos depois, descobri que ela sofria de esquizofrenia que começou depois que os filhos e o mardo morreram num acidente.

    De volta pra nossa grande São Paulo do presente, o câmera designado pra ir junto comigo na cobertura da manifestação também era um recém contratado, tinha acabado de formar em Imagem e Som. Ele estava nervosíssimo para a primeira reportagem dele e eu achei que seria bom tentar passar um pouco de segurança pra ele, apesar de só não estar em pânico também devido à minha clássica apatia.

    Puxei papo com ele e ele me contou um pouco sobre a vida dele: Seu nome era Rubem, tinha estudado em São Carlos e vinha de uma cidade pequena perto de lá. Tinha passado a vida inteira em cidades pequenas, então a ideia da grande São Paulo acabar engolindo ele deixava o rapaz um pouco preocupado.

    Por acaso, Rubem é o nome do cara que minha mulher, digo, ex-mulher arrumou depois que nos separamos. Ela faz questão de esfregar na minha cara toda vez que pode como está mais feliz com ele. O rapaz bonitão, de 20 anos a menos e vários zeros a mais na conta bancária que ela arrumou num cruzeiro. Juro que queria estar feliz ou até mesmo sentir raiva dela toda vez que ela vem me alfinetar, mas adivinhem, apatia como sempre.

    Chegamos ao lugar que estavam esperando a gente e tive um mal pressentimento. Montamos a câmera e esperamos o sinal do âncora no estúdio. Recebi uma colinha com o que eu precisava falar e percebi que todos me olhavam com uma cara de "não estrague tudo, pelo amor de Deus". Fiquei tentado a fazer alguma besteira de propósito pra ver algumas pessoas tendo um colapso nervoso, mas lembrei que preciso comer.

    Recebi o sinal, fiz meu papel, respondi as perguntas e fiz alguns comentários pertinentes. "Voltamos ao estúdio" e meu trabalho estava feito, a câmera fechou e eu pude relaxar a postura. As pessoas vieram me parabenizar mas por algum motivo, o mau pressentimento não saía. Tive a impressão que alguma coisa ia acontecer e que eu não ia gostar dela.

    Mais ou menos uns 5 segundos depois de terminar, ouvi um estouro seco, daquele que se ouve quando se solta um rojão ou uma bala de borracha. Torci pra ser a primeira opção mas estava errado: olhei pro lado e vi um policial com sua espingarda com ocano fumegando e um cone de dispersão em frente a ele.

    A multidão até então pacífica foi tomada pelo medo e pela histeria, e em questão de segundos o protesto se tornou em um mar de pessoas correndo de forma desordenada. Na minha cabeça a voz da razão disse: volta pra van, espera lá e daqui a pouco você tá em casa. Antes que eu pudesse considerar essa ideia, eu já tava correndo pro meio da bagunça pra tirar uma senhora machucada por um disparo de bala de borracha do chão.

    Quando tava correndo, ouvi o Rubem tentar dizer meu nome, mas saindo uma coisa que me pareceu "manga", mas não tive tempo de olhar pra ele. Outro acaso engraçado, quando era mais novo gostava de acreditar que acasos tinham significados. Meu nome tem 10 letras, e quando conheci a Maria Júlia, minha ex mulher, e vi que ela também tinha um nome com 10 letras. achei que era um sinal de que iria dar certo. 10 letras

Assim como o nome da Ana Beatriz, a mocinha que corria do meu lado pra ajudar a senhora

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