A porta do elevador abre. 00h45, merda, a Jô já devia estar na cama e a dona Vilma já deve ter passado muito da hora dela dormir também. Bato na porta e ouço um grito da Jô dizendo "viu dona Vilma, eu disse que ele chegava antes da 1h!". Dona Vilma abre a porta e me interrompe no exato momento que eu ia começara me desculpar. "Seu Ozzy, fazia tempo que eu não tinha uma noite tão divertida, a Jô foi um amor e se comportou super bem. Você devia deixar ela aqui mais vezes!"

    Agradeço por ter cuidado da Jô e desejo uma boa noite enquanto tomamos o rumo do nosso apartamento. A Jô me pergunta como foi o primeiro dia de trabalho e eu fico na dúvida se conto uma versão suavizada ou heroica do que aconteceu na manifestação. Fico com preguiça de decidir e acabo optando pela verdade mesmo. Ela fica toda feliz do pai ter salvado uma velinha e diz que vai contar pra todo mundo na escola amanhã. Ver a Jô orgulhosa de mim e aqueles olinhos brilhando é uma das coisas que torna a vida um pouquinho mais tolerável. Conto então da Ana pra ela. Ela me olha com uma cara que beira o ciúmes, mas não diz mais nada.

    Chegamos ao nosso apartamento, eu ponho ela na cama e então me lembro que eu não comia nada desde o almoço, procuro na geladeira e acho uma lasanha de microondas que vai salvar minha refeição. enquanto a lasanha cozinhava, sinto meu celular vibrando e por algum motivo que eu prefiro não pensar à respeito, vou ver na maior afobação do mundo ver o que era. Notificação do Candy Crush. Obrigado por ter instalado isso no meu celular Jô, e sim, eu sei o que vocês pesaram.

    Como a minha lasanha assistindo a reprise do jornal no qual eu apareci, fico feliz de ter dado tudo certo. Alguns segundos depois, meu celular toca de novo, e meio resignado eu vou ver o que é. Pra minha alegria (e aposto que pra de alguns de vocês), era a Ana.

    Ela me diz que viu a reprise onde eu aparecia e perguntou se eu já tinha aberto o site do noticiário, e depois da minha negativa ela insiste pra que eu veja agora. Quando abro, a primeira notícia que aparece tem a minha foto carregando a dona Jura, com a manchete "Em meio ao caos, jornalista salva idosa.". Parece que o Rubem fez mais do que só dizer que eu tava no hospital.

    A Ana disse que a foto ficou incrível, e me deu os parabéns pela iniciativa de ajudar aquela senhora. Conversamos mais um pouco e damos algumas risadas, brincando com o fato de eu ser o novo herói da semana. Ela me pergunta se eu estava livre pra um almoço amanhã, eu digo que sim e combinamos um lugar antes de desligar. 
    Nesse ponto eu estava passando por várias coisas que eu detesto, incluindo pernas bambas, frio na barriga, mãos tremendo, suor frio e a coisa mais horrível que alguém pode conceber. A visão mais aterrorizante do universo. A imagem de uma garotinha de 10 anos e um metro e meio apoiada no batente da porta, com a expressão fechada e um olhar inexorável capaz de provocar medo em qualquer um.

    Joana me olha e diz "Era a moça do hospital, não era?"

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