Era só a primeira semana e eu ainda não conhecia nada nem ninguém. No meio das salas brancas tão iluminadas e dos rostos tão anônimos e das vozes tão altas e penetrantes, estava eu, um pedaço de ser desconfortável tentando desesperadamente encontrar um espaço entre a rotina do prédio e a conversa no banheiro feminino no qual eu pudesse me encaixar. Cada inspiração minha extinguia o ar da sala, e cada passo era uma batida de bumbo. Minha pele brilhava à tinta neon e mesmo assim nem uma minúscula mosca parecia me notar ali dentro.
Foi na hora da pausa pro café que eu vi a minha chance, quando enquanto eu esperava o bebedouro encher meu quinto copo de água só pra ter o que fazer com as mãos, alguém falou:
"Ah, eu trouxe isso aqui, mas não vou comer. Adoro o gosto, mas não suporto o cheiro que fica na mão."
"É... Eu posso abrir pra você, se quiser" cuspi antes que me desse conta.
Ela me olhou com as sobrancelhas levantadas em surpresa, talvez tentando entender se eu era um anjo, ou um alien.

Há algum tipo de feitiço teletransportador em uma tangerina. Quando rasguei a grossa casca porosa, mini bolhas cítricas de pôr de sol estouraram, fazendo cócegas no meu nariz, e rindo, como se ria nas tardes na casa da vó, sentada no quintal, com os pés sujos e os joelhos roxos dos tombos. Desembrulhei toda a bolota como se fosse um presente de aniversário, e sorri descobrindo que tinha ganhado a primavera.
Entreguei a esfera de gomos para a moça, ainda sentindo o calor do sol batendo na minha nuca, e depois de jogar os destroços de casca no lixo, levei as mãos pegajosas ao rosto, pra garantir que o feitiço ainda estava lá.
"Hmm, eca!" ouvi. Ela provavelmente havia acabado de decidir que eu era mesmo um alien.
"Eu adoro" confessei sorrindo, esperando que mais alguém pudesse enxergar a paletas de cores laranja em que a sala se transformava.
Mas a sala continuava anônima e barulhenta e branca, então eu me virei e fui embora. Não vale a pena perder tempo em um lugar indiferente ao feitiço de uma tangerina. 

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