Se um dia eu morrer mesmo, vai ser de susto.
Consigo até ver a cena: Vou me olhar no espelho um dia, e ter 73 anos. Mesmo que isso aconteça daqui uns 5 anos. Vou ter netos e ainda me perguntar onde estão meus avós. Eles também vão, mas no fundo saberão que “vovó tá lá na casa dela, viajando nas ideias, regando plantinha, sentando o dia todo na poltrona”. Vou morrer de susto, do jeito que a vó parecia que ia fazer quando me via, me colocava debaixo do braço e dizia “como você tá enorme, minha filha, já ta batendo nas tetas da vó” e eu ficava toda orgulhosa, porque a vó parecia enorme de alta mesmo. E meus netos nunca vão saber se cresceram tanto assim. A vovó é da altura da poltrona.

Se eu morrer, vai ser de remorso.
Setenta e três anos? O que? Desde quando? O que aconteceu? Onde eu estava esse tempo todo? Eu não vou lembrar porque, provavelmente, estava dormindo boa parte do tempo. E vou chamar o neto “hey, meu anjo, vem cá, onde que é o botão de reset da vida?”, “ih, vó, tem não”, “mas como não tem? não inventaram ainda?”, “tentaram, mas era furada, os cientistas só queriam o dinheiro do investimento, lembra? tem que se virar com só essa mesmo”. Ih, que caca. Mas é, como diziam no meu tempo: YOLO. “é, vó”.

Se eu morrer, vai ser de dor.
Dor nas costas, no joelho, nos ombros, na unha do dedinho, dor na memória, dor no bolso. Principalmente no bolso. Por que não nasci em país comunista, meudeus? Por que não nasci em família rica? Por que não abri uma igreja? Por que não nasci planta? Vou morrer de dor e vai ser antes dos 73. Vai ser antes dos 37. Talvez antes dos 24.

Se eu morrer, vai ser de solidão.
Vou morrer e ninguém vai ficar sabendo. Não que faça diferença, porque eu vivo e poucos sabem também. Vou agonizar de susto, de dor e de remorso, e ninguém vai perceber. Aí eu vou morrer de solidão.

Se eu morrer, vai ser de preguiça.
De pura preguiça de levantar e ir lá viver, simples assim. Vou virar um zumbi, e os vizinhos vão se perguntar “mas quem será que mora aqui?”, e eu vou ser personagem principal de tantas histórias que todo mundo conta, e que eu sempre tive preguiça de escrever. Vou morrer de preguiça de ir lá fazer almoço, de ir lá desligar o gás, de ir lá porque o alarme de incêndio disparou.

Se eu morrer, vai ser de agonia por não viver direito.

Ou então, talvez eu morra de amores por gatos.

26/10/2014

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