Demorou talvez uns seis meses pra eu esbarrar a vizinha do 7. Demorou, na verdade, pra eu perceber que tinha alguém morando no 7. Tão quietinha, Miss Diana chegou um dia com uma gaiolinha coberta enquanto eu fuçava na caixa do correio pra pegar as contas que o Seu Jonas recebia pra gente. Ela percebeu meu olhar de curiosidade pro volume embaixo do paninho branco na mão dela, e ao invés de me responder com a porta na cara, como estamos mais acostumados por aqui, ela disse, com um certo enrolar nos Rs, que se eu me incomodasse, porr favorr, poderia interfonar e avisarr, ela faria alguma coisa, é que ela tinha pego o papagaio, mas achava que ele ia ficar quietinho, ele não falava muito. Naquele dia batemos um papo meio corrido de corredor de prédio, mais por conta de minha inquietação social do que por parte de Diana. Na verdade ela era um doce. Descobri rapidinho que ela veio da Inglaterra estudar biologia, que ela nunca tinha combinado muito bem com o cinza de lá, gostava mais era das cores do Brasil, e acabou ficando. Trabalhava com animais marinhos, mas quando achou o papagaio todo machucado e com medo, escondido nas portas dos fundos do laboratório, se apaixonou por ele. Acabaram deixando ela ficar com o bicho, tinha até um certificado. Não entendo muito de animais selvagens, mas acho que isso não é uma coisa comum entre donos de papagaios. Ele só não falava, ela disse que era porque ele tinha fraturado alguma coisa, mas que ficaria bem.
Da senhorita Diana mesmo eu acabei descobrindo mais depois, através da porta e da janela. Eu sei que soa um pouco perturbador, mas juro que não é nada disso. Eu só não conseguia me conter. Todo dia ela saía às 8h da manhã pra ir pro Centro de Biologia deixando um rastro de cheiro de protetor solar no corredor, dizia o bom dia mais educado que o Seu Jonas ouvia, e nunca corrigia quando ele a chamava pela versão brasileira do nome (já eu sempre pensava, é “Daiena” que se diz, seu Jonas). Chegava às 17:45, às vezes mais tarde, às vezes com sacolas de mercado, geralmente descabelada, geralmente sorrindo, “boa noite, Mr. Jonas” e o porteiro tentava controlar o risinho encabulado que sempre surgia quando ela o chamava de mister e fingia não notar, e “hey, sweetheart” pro papagaio, enquanto trancava a porta.
Na minha cabeça eu a chamava de Princesa e fingia que era por ironia.
Um dia Diana apareceu com um moço. Eu os vi chegando enquanto lavava a louça, não que eu estivesse esperando. Riam enquanto ela se atrapalhava com os equipamentos de mergulho que estava carregando e ele não conseguia tirar os olhos dela. Acabamos sendo apresentados na terceira vez em que eles saíram juntos do apartamento de manhã e eu arrastava o lixo pra fora. Diego, pesquisava qualquer coisa sobre algas que eu não dei a mínima, me cumprimentou com um “e aí”. Ele não disfarçava que era do Rio mesmo, alto, queimado de sol e jeito malandro contrastando com ela quando iam abraçados tomar café na padaria sábado de manhã.

Não demorou muito pra que Diego chegasse um dia com duas malas e uma prancha de surf no número 7. Passou a entrar no apartamento com a própria chave, mandando um “qualé, papagaio” enquanto raspava as havaianas no tapete.
Também não demorou muito pra que ele chegasse um dia com uma moça que definitivamente não era Diana, mas poderia muito bem ser sua irmã, e a levou pra dentro de casa com a mão em suas costas, nem ligando pro pássaro. Fofocas à parte, longe de mim, claro, mas passei a achar que talvez o cara viesse de uma família bem grande, talvez grande o suficiente pra que nem a namorada conhecesse todas as cunhadas.

Diana saía e voltava com verduras. Diego saía e voltava com alguma bunduda diferente. O papagaio ficava, e dele não saía um piu. Eu me perguntava o que porteiro pensava cada vez que tinha uma visita nova no apartamento do lado, imagino que o mesmo que eu. O final cliché e esperado aconteceu um dia, claro.
Quando Diana passou dando seu habitual “boa noite, Mr. Jonas” ele respondeu apenas um “boa noite, querida” apreensivo, e assim que ela entrou no apartamento, no meio do cumprimento, o prédio inteiro descobriu que alguém morava no número 7. Até Seu Jonas entendeu o que significava quando, da porta ainda aberta, ressoou a voz de princesa, alguns tons mais grave. “Fuck!”

A boa notícia era que o pássaro não era mudo coisa nenhuma, aparentemente só faltava um pouco de motivação. Ninguém comentou nada nem nos corredores, nem na porta do prédio, mas eu ouvia ainda dentro da minha cabeça o eco do flagra, e agora o papagaio que tinha aprendido a falar e parecia se deliciar com sua nova habilidade.
Ouvi ele gritando quando Diego saiu com as malas e a prancha, sem chave. Fuck!
Mr. Jonas e eu ouvimos ele por cinco dias seguidos, no lugar do “bom dia”. Fuck! No corredor, nada de cheiro de protetor solar, nem risadinhas. Durante a tarde, apenas o ruído constrangedor da vassoura da moça da limpeza e o papagaio que ainda gritava.
Lembrei do que ela me disse no dia em que ele chegou, mas não tive coragem de interfonar. Não era o papagaio que incomodava.
Nunca soube muito bem lidar com essas situações, oferecer um café e falar sobre o assunto, por exemplo, não me parece um jeito inteligente de curar mágoas. Tudo o que eu conhecia sobre a vizinha parecia proibido, e como dizer que olha, desculpa, mas eu sei tudo sobre você e sua vida porque, bem, porque a janela da minha cozinha tem vista direta pra sua porta e porque às vezes eu desligo a televisão quando você está chegando em casa? Sou mais do tipo que finge que não sabe de nada.

Um dia Diana saiu às 8h, com os equipamentos de mergulho e me permiti acreditar que as coisas estavam melhorando. O cheiro no corredor me consolou, a vida voltaria ao normal. Até sorriu pro porteiro. Quando ela voltou, abriu a porta e cumprimentou “hey, sweetheart”, e o bicho respondeu “Fuck!”. 

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