Quando o homem branco chegou na ilha Kyhllòy os ventos já haviam trazido canções de terras distantes, e por isso o povo mgab'he estava muito curioso, e como não conheciam a guerra e a ganância, receberam os homens com a mesma alegria que recebiam a primavera. Em pouco tempo, porém chegaram os navios e as armas, e apesar dos mgab'he não saberem o que significava escravidão, preferiram não esperar para descobrir. Um grande ritual aconteceu para despertar o corpo de deuses que há muito descansavam dentro da terra, mares e céus. Numa noite quente, como eram sempre as noites na ilha, todos os homens e mulheres, crianças e idosos, que não tiravam dos rios e florestas nada sem antes oferecer algo em troca, cantaram a canção de Pappauthe, a grande lula que abraçava a ilha com seus doze tentáculos.

Pappauthe então enviou à Kyhllòy seus três espíritos mais fortes, que deixaram apenas três dos homens brancos vivos por tempo o suficiente para voltar ao seu continente gelado e levar a mensagem de que nunca, jamais, nenhum outro homem deveria se aproximar da Terra da lula.

Todos os outros homens brancos que estavam na ilha foram levados à boca do vulcão Winjhllòy para alimentar a terra, no que foi a maior oferta feita a Guand'heay, o espírito do solo. No dia seguinte, árvores de frutas, flores e raízes jamais vistas na ilha, brotavam e cresciam, anunciando com novas cores e cheiros a fartura e a força do povo mgab'he.

O homem branco porém, também havia trazido seu Deus e semeado Sua cobiça no ventre de mulheres de Kyhllòy.

As primeiras crianças boùn-bha'he foram acolhidas e, graças ao Abraço da Lula, demoravam a apresentar sinais da traição branca. Mas eles surgiam, eventualmente. Suas peles mais claras e a tendência a desenvolver pequenas bolhas nos braços e pernas de tempos em tempos não eram o problema, mas às vezes, um menino ou menina descendente do homem branco pegava duas batatas-doce do cesto de outra criança durante a colheita e colocava no seu próprio, enquanto achava que nenhum adulto estava olhando. Esses momentos não traziam grandes consequências à harmonia do povo mgab'he, mas resultou num acordo silencioso de manterem-se alertas aos pequenos rituais dedicados a Boùn, o Espírito Hostil do homem branco, enquanto cantavam e dançavam para que Pappauthe o levasse embora. Assim, quando o céu de Kyhllòy anunciava a volta dos Três Filhos da Lula, o povo mgab'he se preparava para o Festival da Revelação.

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Ventava tanto em Kyhllòy que os pássaros resolveram deixar seus afazeres para mais tarde e se esconderam nos buracos das árvores. O céu, agora escuro como as pedras mais profundas do rio Tolenm apagava o brilho da Grande Semente de Ouro. As águas que rodeavam a ilha se agitavam em altas ondas, indicando o despertar dos três espíritos.

Homens e mulheres se juntavam para costurar, colher, cozinhar e pescar.

Tahnyk, Wheyn Dya e Pokun compartilhavam o mesmo sangue entre elas e mais ninguém. O pai e a mãe das meninas traziam o sangue de avós boùn-bha'he, e quando os dois lutaram, três festivais atrás, a herança do homem branco os traiu. Eles foram oferecidos a Guand'heay, e as três meninas foram criadas por uma família que já havia expulsado Boùn há cinco gerações.

Havia no ar uma energia pulsante.

As três eram as últimas crianças boùn-bha'he, e nenhuma delas havia gerado outra criança ainda. Isso significava que mesmo que elas fossem vencidas pelos Filhos da Lula e levadas ao vulcão Winjhllòy, a ilha estaria finalmente protegida da ganância do homem branco. Porém, não poderiam correr o risco de oferecer à terra crianças mgab'he, e para terem a resposta do verdadeiro espírito das três meninas, era preciso que elas lutassem com os filhos de Pappauthe e vencessem. De qualquer forma, esse seria o último Festival da Revelação, seria o Adeus ao Espírito Hostil, e por isso os mgab'he o chamaram de Boùn Pateyhl.

- Não tenham medo, minhas meninas - disse a querida Yunni Kah'ley, uma mulher com braços, seios e o coração quase tão grandes quanto as montanhas da ilha - Pappauthe foi muito generoso com vocês enviando seus filhos para revelar vossas verdades o quanto antes. É muito ruim levar uma vida de dúvidas, e pior ainda levar uma vida direcionada por Boùn.

- Não estamos com medo, tia Kah'ley. Não há espaço para o medo no espírito mgab'he - respondeu Wheyn Dya enquanto trançava os cabelos lisos de Tahnyk.

- Cancelem o Festival! A verdade acaba de ser revelada - riu a mulher, acolhendo as meninas em um forte abraço.

Elas meditaram, se lavaram, recitaram canções e se perfumaram juntas na cabana de Yunni Kah'ley. Quando saíram, a ilha havia se transformado em uma enorme festa. Tahnyk, a menor e mais nova das três, exibia seus grandes dentes da frente em um sorriso de pura expectativa. Wheyn Dya usava uma túnica de couro muito curta para que fossem exibidos os símbolos pintados em tinta vermelha na sua pele escura, e seus cabelos crespos formavam um globo ao redor de seu rosto. Pokun, a mais velha, como sempre em silêncio e descalça, tinha as orelhas repletas de brincos, e os únicos pelos do corpo eram as duas finas linhas pretas acima dos olhos. Tia Kah'ley vinha atrás, com cabelos amarelos e uma confiança que apenas a pessoa mais sábia da ilha possuía.

No pé do vulcão Winjhllòy crianças e adultos dançavam e comiam, rodeados de tochas acesas e sons de tambores, chocalhos, palmas e as ondas da praia. Os adolescentes se divertiam com o suco de raízes alucinógenas e as crianças menores brincavam com bonecos feitos de cascas e folhas de frutas. As velhas senhoras entregavam roupas que haviam costurado para os mais jovens, e esses traziam para elas cumbucas cheias de fatias de peixe cru, brotos de feijão e folhas amargas recém-colhidas.

Quando o brilho da Grande Semente de Prata surgiu no céu e as águas do mar formaram uma dança tão serena que era preciso ficar em silêncio para apreciá-la, todos os habitantes da ilha pararam para ver surgir no horizonte, trazido pelas águas salgadas, o homem alto e magro, em um terno azul tão escuro e cintilante quanto poderia ser. Pappauthe caminhava do oceano à praia e exalava uma música antiga, a mesma que toda a tribo mgab'he havia cantado centenas de anos atrás para ele.

Assim que os pés negros de Pappauthe pisaram a areia de Kyhllòy, as três meninas boùn-bha'he foram levadas, de joelhos, ao chão. Seus espíritos e corpos entregues e preparados para a provação. O homem ergueu os dois braços, e de alguma forma seus doze tentáculos estavam estendidos.

- Então dancem! - disse o corpo da Grande Lula, e nesse momento, estavam ao seu lado três outros homens, muito mais altos e largos do que qualquer outro homem mgab'he.

O primeiro homem era um peixe. Ele usava um sobretudo - ou era sua pele? - de ceda azul, do mesmo tom das águas do rio Tolemn, que era também suas escamas. Pònjon, a força das águas doces, deu um pulo e mergulhou em direção da pequena Tahnyk, que teve tempo apenas para prender a respiração e não se afogar.

O segundo homem era um dragão, e de seu nariz e boca saía um fino rastro de fumaça. Holumn, a força dos ares, não corria, mas flutuava, quase como se estivesse sendo levado por asas invisíveis, e seu kimono vermelho parecia estar em chamas. Bastou que ele olhasse para Wheyn Dya para que uma nuvem cinza a escondesse.

O terceiro homem era um elefante. Sua pele morena e dura parecia ter sido submetida a milênios de trabalho debaixo do sol. Ele não era rápido, mas cada esforço dos seus músculos poderia mover a própria Kyhllòy facilmente. Em sua cabeça havia um turbante verde que cobria toda a sua testa até onde começava sua tromba. Esse era a força das terras, Gjobeh, e a cada passo seu, o chão vibrava tanto que Pokun não conseguiu ficar em pé.

Rodeadas de água, fumaça e terra, a três meninas tinham duas alternativas: morriam ou lutavam. A primeira opção parecia mais óbvia e começava a soar até mais agradável, para Tahnyk, apesar de parecer muito errada. Wheyn Dya abaixou-se, perdida na nuvem de fumaça que começava a entrar em sua boca. Tentava achar suas irmãs, mas a única coisa que via eram cinzas, pedras e lama. Queria chamá-las mas seria seu fim. E seria de qualquer forma. Talvez ela fosse mesmo filha de Boùn.

Tahnyk podia sentir todos os peixes e algas se tornando seu corpo. Pònjon a dominava sem piedade. Então ouviu a voz de sua irmã gritando seu nome. O som não vinha de nenhuma direção e vinha de todas ao mesmo tempo. A menina pensou em responder, mas se abrisse a boca para chamar Wheyn Dya, se afogaria. Ou talvez ela já estivesse afogada.

Uma pilha de pedras começava a se formar em volta de Pokun e em poucos segundos, calculou, ela estaria soterrada. Empurrar não seria o suficiente, se manter até mesmo ajoelhada era impossível. Ela não queria, mas sabia que nenhum esforço seria em vão. Pokun Pateyhl. Então ela fez a única coisa que poderia fazer, e a única coisa que ela nunca faria.

O grito de Pokun chamando o nome de suas irmãs foi tão alto que todos na ilha o ouviram. Tahnyk não se afogou, Wheyn Dya não sufocou com a fumaça.

Então tudo se suspendeu: os tremores de Gjobeh, o fogo de Holumn, as espumas de Pònjon, o tempo e o som. Tudo era um longo silêncio e agora. Um batuque ritmado surgiu nos ouvidos das três garotas. O som de pulsações em seus tímpanos? Ou era a canção de Pappauthe? Nesse momento em que até o ar parecia ser sólido, as meninas conseguiram se levantar e caminhar (sem mover os pés, como fez Holumn) até os homens gigantes. Ainda com ritmo da canção tocando em seus ouvidos, as três meninas se lançaram contra os Filhos da Lula, atravessando seus densos corpos como se fossem feitos de neblina. Ao serem atingidos, os três espíritos se encolheram e voaram com um alto agudo, até se desmaterializarem completamente.

Pònjon, Holumn e Gjobeh não poderiam nunca ter matado as garotas Tahnyk, Wheyn Dya e Pokun, assim como também não o poderiam ter feito Guand'heay e nem mesmo Pappauthe, a Grande Lula, porque as três eram, e agora toda a ilha Kyhllòy sabia disso, verdadeiramente mgab'he e todos estavam livres de Boùn.

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