Ontem completei 4 semanas como professora da rede pública de ensino municipal.

São muitas impressões pra contar. Poderia ficar horas e horas falando sobre. Na verdade, toda vez que encontro um amigo que me pergunta sobre a escola, falo. E falo muito. Aqui vou resumir pra não encher tanto o saco de vocês com esse negócio de ser professora.

Tenho duas turmas de 6º ano, aproximadamente 30 alunos em cada sala.

Já havia sido alertada que eles são extremamente indisciplinados, alguns até analfabetos. A escola fica na periferia, região carente social e afetivamente na Casa Verde Alta/Zona Norte. Bônus: tenho um aluno de inclusão em cada turma, ambos com autismo (cada qual com seu nível de dificuldade).

Primeira aula: medo. Medo de não saber passar o conteúdo, de ser odiada por alunos e colegas de trabalho, medo de me apavorar e querer sair correndo, enfim. Usei muito da improvisação e bate papo com eles pois só no dia recebi os conteúdos que a professora anterior tratava e a partir daí poderia planejar a semana, o mês e o bimestre. 

Segunda aula: precisei colocar SEIS alunos pra fora da sala. Foi extremamente desconfortável e estressante. Saí da escola com a garganta ardendo de tanto gritar. Fiquei frustrada pelo não-rendimento dos demais.

Fim da primeira semana: voltei pra casa chorando ao saber da situação pessoal de um aluno. Morador da favela, sem pais, cresceu no tráfico, foi olheiro em boca de fumo desde pequeno até ser resgatado pela madrinha que agora tenta cuidar dele. Viu o tio ser assassinado pela polícia. É extremamente agressivo, fala palavrões que eu nunca ouvi na vida. Me senti mal, muito mal. Mas passou. Botei na cabeça que eu faço o possível, mas não sou heroína não vou salvar o mundo.

Segunda e terceira semanas: conteúdo planejado, consegui gravar o nome de todos os alunos, conquistei o carinho de alguns e o ódio de outros. Reunião de professores: os colegas novatos e eu ficamos no meio do fogo cruzado das brigas e discussões. Ser educador não é fácil. Reunião de pais: descobri porque alguns alunos são tão ruins...os pais são piores! Mas em compensação, conversei com uma mãe extremamente carinhosa com sua filha aplicada, me emocionei pois ela lembra muito a minha mãe e a menina lembra a mim mesma nesta fase da vida escolar.

Essa última semana: extremamente feliz com alguns alunos muito interessados. Extremamente triste com a falta de comprometimento de outros. Novamente, botei uma galerinha pra fora. Estava impossível. Consegui conversar com outros e estabelecer acordos. A escola vai promover um sarau com a temática sobre a África e propus um poema sobre racismo. Fui podada pela coordenação, com a alegação de que é um tema muito "polêmico" para se tratar na escola. Meus alunos são pretos e partos (e tenho os bolivianos também!), gostaria de criar uma consciência e desconstruir os preconceitos que eles praticam em sala de aula, mas fui impedida. Mais uma frustração.

Saldo: não vou ser a salvadora da educação da zona norte, muito menos paulistana ou brasileira. A cada dia eu procuro dar um passo, pequeno, mas que se bem dado poderá fazer a diferença lá na frente. O fato de pegar as turmas no meio do ano me prejudicou muito (e a eles mais ainda), contudo ainda é possível um bom encaminhamento para que este não seja um ano perdido. 

Ser professora é, ao mesmo tempo, instigante, enlouquecedor, apaixonante. Eu sempre tive certeza que a Geografia foi minha melhor escolha, mas tive minhas dúvidas em relação à educação. Hoje não tenho mais. É isso mesmo que eu quero, e eu amo.

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comentários (1)

  • que inspirador

    caroline 21/08/2017 @ 19h