Após ler mais um relato de uma moça que sofreu num relacionamento extremamente abusivo, o antigo peso que eu sentia há 7 anos volta e com ele lembranças ruins.

É a primeira vez que escrevo sobre isso, já verbalizei trechos da história com alguns mais chegados. Senti a necessidade de colocar pra fora isso que incomoda, machuca mas que talvez abra os olhos de alguns e algumas.

Primeiro ano de faculdade, primeiro ano morando sozinha. Gente nova, muitos amigos e coisas pra fazer. Morava em uma pensão de meninos e meninas. Uns 3 meses, surge o interesse pelo rapaz gentil e educado da casa de baixo. E foi recíproco. Ele não era da universidade. Fazia cursinho, queria ser economista. Estudava o dia todo e a noite batia papo com os colegas de moradia. Tudo normal. Muito carinho,muita conversa, a velha história do casal fofo que se dá super bem.

Com o tempo, as máscaras caíram. O rapaz educado se tornou o homem mais egoísta e canalha que já conheci na minha vida. Me desmerecia pela profissão que escolhi, me humilhava dizendo "você vai ser professora, vai passar fome pro resto da vida". Me diminuía pelas minhas características físicas (altura, cor da pele, cabelo, etc.). Pedia meu computador emprestado quando eu não estava presente e usava para marcar encontros com outras meninas, fazer sexo virtual com elas. Praticava semanalmente chantagem emocional, ameaçando terminar o relacionamento caso, em alguma ocasião, eu discordasse dele. Se tornou extremamente antipático com os colegas de casa, me afastando deles. E por fim, numa "brincadeira" me deu uma mordida no rosto que doeu tanto quanto um soco; chorei, ele riu e não pediu desculpas, disse que eu sou muito frágil. Fiquei três dias sem sair de casa por vergonha. Me sentia culpada pela violência que eu mesma sofri, gratuitamente.

Depois de meses vivendo desta maneira, na virada do ano prometi a mim mesma que no próximo conflito eu iria terminar tudo. Foi o que eu fiz. Ele, de início aceitou, horas depois bateu na porta da minha casa (já não morávamos mais no mesmo local) chorando e implorando que reatássemos. Me recusei. Ele continuou nisso por algumas semanas, recorrendo a todo tipo de ajuda: meus amigos, presentes, cartas, emails, mensagens...Mesmo magoada, não tive raiva e me propus a ajudá-lo a estudar pro vestibular daquele ano (já que ele não havia sido aprovado no ano anterior), ele se recusava e apenas aceitava minha presença ao lado dele como namorada. Como a posse que ele tinha.

Tempos depois, ele me viu com outra pessoa na faculdade. Fez barraco, me humilhou, tentou agredir o cara que estava comigo. Eu nunca passei tanta vergonha na minha vida como naquele dia! Me ameaçou. E começou a me perseguir. Todas as quintas e sextas me ligava após às 22h para saber onde eu estava. Aparecia em todas as festas para me procurar e me seguir. Me ameaçou com uma mensagem dizendo que iria espalhar fotos nuas minhas no email institucional da universidade (essas fotos nunca existiram). Moveu mundos e fundos para acabar com algumas das minhas amizades e infelizmente conseguiu.

Tempos depois marcou um encontro para pedir desculpas. Desconfiada, fui. Não sozinha pois não sou louca. Pediu desculpas, esclareceu que tudo foi "um mal entendido". Me deu um chocolate de presente, que eu joguei fora assim que ele saiu porque eu não tinha confiança. Nem tenho. Nunca mais vi, não sei o que aconteceu com ele. Também não quero saber. Meu único desejo é que a vida se encarregue pra que ele pague o que fez comigo e rezo sempre para que nenhuma mulher passe com ele o que eu passei.

Sempre tento tirar boas lições de coisas que me acontecem na vida, sejam elas boas ou ruins. Nesse relacionamento aprendi que não devo, em hipótese alguma, me submeter a homens abusivos. Mais tarde, as amizades e minha convivência na vida universitária me ensinaram que eu posso e devo procurar ajuda de mulheres e coletivos feministas, denunciar e expor, não importa quem seja. Foi uma experiência horrível que me fez uma mulher mais forte.


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