Certo dia, sentada num ônibus, olhando pela janela, avistei na sarjeta insetos nos braços de um homem pálido. O ônibus continuou, e o homem foi deixado. A agonia de seu sangue sugado me levou a um deserto. Um deserto tão longe, mas me lembrava a cidade. Tudo tão árido. Aquele ar sufocando, aquela areia cegando meus olhos. Eu não podia parar. Não entendi porque estava ali.

Mas eu tenho um cavalo, tenho uma espada, e quem sabe até um pouco de água, por isso eu sigo.

O meu cavalo é Azul. Minha armadura é de prata. Aquela areia, escorregadia, me engana. Num tropeço, uma cobra. Cobra vermelha, detalhes brancos. Pica meu cavalo. Morte à Azul. Golpe desonroso, veio das sombras. 

Ergui minha espada, me coloquei a lutar com honra. Mas o animal foi embora, amedrontado com a coragem. No deserto existem seres que desconhecem a honra. E muitas vezes fui desonrada. Em desertos da cidade, aprendi a enxergar desonra. Eu devia ter visto... 

Mas Azul morreu. 

E Azul me acompanhava. Bebia de minha água, ouvia meus cantos. Azul era parte de mim.

Azul me guiava.

Enterrei minha dádiva com honra. Rezei em seu nome. Chorei sua morte, quase morri de pranto.

Andei três dias sozinha sob o sol ardente. 

No último dia, no último gole de água que guardava, tirei meus olhos do mar de areia e olhei o céu. De longe, um ponto. Mais um pouco, um pássaro. Mais próximo, uma águia. 

Azul e Amarela, cantando seus gritos, rasgou furiosamente os ventos e posou em meu ombro. Seus olhos eram de Azul. 

Azul ressurgiu e me levou de volta para casa.

Agora, eu era azul também.

Tags

comentários (0)

Sem comentários