Era uma mistura básica de silêncio com falar apenas o necessário. Não precisava de muito para agradar: convite para comer algo, uma TV para assistir o futebol, café passado na hora. O perfume era o mesmo desde 1992, o ano em que eu passei a presenciá-lo.

Gostava de cinema e fotografia. Gostava de música. O toca discos permanece aqui, intacto. A última vez que colocamos para funcionar, ele colocou o disco de True Blue que tinha me dado. "Percebe como o som é mais limpo? Discos são bem melhores que essas porcarias que você ouve no celular." Eu sei e concordo. Esse foi um dia atípico em que ele acordou se sentindo menos doente e quis ouvir seus discos antigos. Isso nunca mais aconteceu e, aliás, dali em diante, ele só acordou se sentindo pior.

Tinha uma necessidade de gastar dinheiro com coisas que as pessoas achariam desnecessárias. "Eu não vou levar nada dessa vida mesmo, vamos comprar mais coisas." 

Nunca me negou um livro. Colocou diversas estantes no meu quarto para que eu abrigasse cada vez mais obras. Ele não chegou a ver, mas hoje eu tenho tantas que não cabem mais nas prateleiras que ele deixou. Inclusive, comprei novas ontem.

Senta aqui, porque você precisa entender de futebol. E me ensinou.

Já sabe andar de bicicleta. Quer um skate agora? Patins? Escolhi patinete.

O que você pretende fazer quando crescer? Precisa guardar dinheiro como eu nunca fiz. Não tenho guardado.

Quer um violão? Uma gaita? E me deu tudo isso, mas ficou revoltado quando percebeu que eu preferi tocar tamborim. Não gostava samba. Queria que eu tivesse uma banda.

Olha direito, foca direito. A foto tem que sair nítida no seu foco principal. Ainda não aprendi direito.

Como assim você não come peixe? Tem que comer, porque faz bem. E tomar leite também, vai fazer diferença no futuro. Prossigo sem comer e beber essas coisas todas.

Vamos sair para comprar as figurinhas e completar seu álbum da Copa do Mundo. Um dia vamos a um jogo juntos. Completamos, mas nunca fomos num jogo juntos. 

Você tem que se tornar adulta e independente, porque eu e sua mãe vamos morar em Minas em breve.

E não foram. Minha mãe continua aqui. Eu, em partes, me tornei adulta e independente, mas é um processo longo. Ele nunca voltou para lá. Não deu tempo. Mas, depois de tudo, percebo bem o quanto me pareço com ele. A vida passa voando mesmo. É o ciclo das coisas. Então eu vou sentar e ouvir as músicas que eu gosto com calma. Vou comprar mais livros. Vou tirar mais fotos. Vou assistir mais filmes e até ver futebol. Pode ser até que eu aprenda a tocar o violão que tá encostado ali no meu quarto. Eu gosto tanto de muaica, não é?

Eu não preciso de muito. Sento aqui e escrevo sobre ele. Percebo bem que eu sou, no final das contas, espelho do espelho que a vida me deu.


 

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