O sol lançava seus raios sobre a água fazendo o lago brilhar tal qual ouro líquido. As folhas nas árvores ao redor murmuravam entre si como se contassem segredos umas às outras enquanto a mulher sentada na cadeira de balanço na varanda admirava-se com tudo, como se estivesse vendo aquele lugar pela primeira vez. Mas na verdade, foi naquela casa que Marli viveu a maior parte de sua vida. Afastados da cidade e da correria do dia-a-dia, ela e Francisco tiveram seus quatro filhos no rancho que chamavam de Tijuco.

Antigamente, a família inteira se reunia ali nas tardes de domingo para conversar e contar histórias. Agora, os três filhos mais velhos estavam casados e moravam longe. Marli os criou como pássaros e como diz a música, eles foram voar. A caçula que fora chamada de Mirian, que já tinha por volta de vinte e três anos, não quis se casar ou se aventurar em uma universidade ou emprego cidade, apesar da insistência dos irmãos. Ela preferira ficar em casa e cuidar da mãe idosa.

Marli gostava de passar as tardes observando os patos no lago, os pássaros nas árvores e os cachorros dormindo na sombra. Vez ou outra, uma seriema de pernas longas e bico fino abandonava a timidez e aproximava-se para beber da água do lago.

Já era quase três horas quando Mirian terminou de lavar as louças do almoço. Ela enxugava as mãos no avental quando se aproximou de sua mãe na varanda. Em seus olhos era possível ver toda a ternura, afeto e amor que nutria por ela, mas se observasse mais atentamente, também se veria tristeza, cansaço e medo.

— Mãe, quer um copo de leite?

Marli sorriu ao ouvir a voz de Mirian e negou com a cabeça sem desviar o olhar da porteira que dava acesso à propriedade.

— Estou bem — respondeu. — Vou esperar seu pai.

A filha não discutiu ou discordou, mas voltou para dentro de casa antes que sua mãe se virasse e vesse seus olhos marejados.

Marli não precisou esperar por muito tempo. Quando o relógio de pêndulo na parede da sala soou três e quinze, uma velha brasília de pintura bege arranhada parou do lado de fora. A porta do lado do motorista se abriu e um jovem homem magro sorridente saiu de dentro dela. Ele usava um terno quase que da mesma cor do carro e ostentava um bigode cuidadosamente aparado sob o nariz.

O homem abriu a porteira e acenou para Marli. A mulher parecia prestes a chorar de alegria quando ele se aproximou e sentou ao lado dela na cadeira de balanço. Ele colocou a mão dela entre as dele, como costumava fazer, e suas testas se tocaram em um silencioso reencontro.

Marli não conseguiu impedir as lágrimas e elas escorreram quente pelo seu rosto.

— Por que está chorando, Marli? — Ele perguntou.

— Francisco..

. — Eu estou aqui.

Ele pegou um lenço do bolso interno do paletó e enxugou o rosto de sua esposa.

— Você está tão bonito — disse ela após se acalmar.

— Seus olhos que sempre foram gentis comigo. — Ele respondeu sorrindo. — Você estava me esperando?

— Eu sabia que você viria no domingo

. Eles trocaram um olhar cúmplice, aquele olhar que somente quem passou uma vida inteira juntos é capaz de trocar.

— Se lembra de quando dançávamos aqui? — Francisco perguntou.

— Eu nunca esqueci.Ainda guardo todos os seus discos.

Francisco sorriu e se levantou. Marli o perdeu de vista quando ele entrou na sala. Alguns minutos depois, ela ouviu o som de piano vindo da direção onde ficava a velha vitrola. Aquela era a música preferida do casal. Francisco fez uma reverência em exagerada cortesia a Marli e lhe estendeu a mão.

— Francisco, olha para mim. — disse a mulher. — Eu estou velha para dançar.

— Ora essa, Marli. Confie em mim. — Insistiu o marido com um sorriso travesso.

Ela então pegou a mão de seu marido e ele a puxou para um abraço. Marli sentiu como se o peso dos anos a abandonassem. Seu corpo havia voltado ao que era nos anos sessenta, quando conheceu Francisco. As roupas de lã que mantinham seu corpo enrugado aquecido transforaram-se em um lindo vestido branco rodado e seus cabelos ralos e grisalhos ganharam vida novamente caindo sobre seus ombros em cachos negros volumosos.

O feliz casal dançou de olhos fechados apenas sentindo a música e a presença um do outro. Nada mais importava a não ser aquele momento. Era a tarde de domingo perfeita, a tarde com a qual Marli sonhara por anos. Era grata por viver aquele momento mais uma vez, grata por ter tido a vida que quisera ter, grata por sentir-se amada e por amar.

Os dois rodopiaram pelo gramado na frente da casa sob a sombra das árvores farfalhantes. Marli envolveu Francisco com os braços na altura do pescoço e o moço segurava sua amada pela cintura. Eles não ousavam desviar o olhar um do outro, temerosos de que pudessem perder algum detalhe. E então se beijaram.

O beijo que primeiro foi dado quando selaram sua união no altar de uma igreja, agora selava o reencontro que esperaram por tantos anos. Os amantes recusavam-se a afastar os lábios e continuaram dançando em perfeita sintonia.

Já estavam quase chegando na porteira quando Marli olhou para a varanda de sua casa. Ela viu o velho corpo já sem vida que um dia habitara na cadeira de balanço e, ao seu lado, Mirian chorava desesperada. Marli não queria que sua filha caçula sofresse. Francisco também viu o mesmo que sua esposa, então eles pararam de dançar e seguraram as mãos um do outro com força. Era um momento difícil.

— Ela vai ficar bem, Marli. — disse Francisco. — Ela vai ficar bem.

Marli concordou em silêncio e os dois seguiram para fora da propriedade. O cavalheiresco Francisco abriu a porta da brasília para Mirian e ela entrou. O motor foi ligado com um ronco suave. Assim como haviam chegado no Tijuco pela primeira vez quando se casaram, o casal partiu na tarde de um domingo. 

Tags

comentários (0)

Sem comentários