Eu caminhava na Universidade quando alguém me parou e falou:

-Aê parceiro, me dá tua mão que eu quero ver se tá com cheiro. Porque eu sou um cara honesto e detesto maconheiro.

Eu tinha acabado de sair do banheiro e dei a mão pra ele cheirar, mas foi uma cena bisonha. Ele cheirou a minha mão por um tempo e eu disse:

-Espera, você não é o Capitão Nascimento? Que vergonha, meu capitão. Procurando maconha na Universidade? Qual é a tua missão? Eu vi teu filme, mas não me leva a mal, não me tortura assim não, que eu sou um cara legal. Em certas coisas eu concordo contigo, mas não é assim que você vai achar os grandes bandidos. Esse país tá fodido...

Aí ele falou:

-Eu sei disso. Quando eu entrei na PM, eu assumi um compromisso, eu luto pela justiça.



-Eu também – disse, continuando a conversa - Sem justiça não tem paz e sem paz eu sou refém. A injustiça é cega e a justiça enxerga bem. Mas só quando convém. A lei é do mais forte, no Bope ou na Febem, na boca ou no Supremo. Que justiça a gente tem, que justiça nós queremos?

Silêncio por uns instantes. Daí eu continue:

-Capitão, não sei se você soube dessa história, que rolou num povoado peruano, se não me falha a memória. Um político foi morto pelo povo. Um corrupto linchado por um povo que cansou de desrespeito, e resolveu fazer justiça desse jeito. Foi um linchamento, foi um mau exemplo. Foi um mau exemplo, mas não deixa de ser um exemplo. Eu sou contra a violência, mas aqui a gente peca por excesso de paciência. Com o "rouba mas faz" dos verdadeiros marginais, chamados de "doutor" e "vossa excelência". Cujos nomes não preciso dizer, a imprensa publica, mas tudo indica que a justiça não lê. Diz que é cega, mas o lado dos colegas ela sempre vê. Capitão, isso é um serviço pra você!

Conversei com o Nascimento, que não pensa como eu penso, mas pensando nós chegamos num consenso. Nós somos vítimas da violência estúpida que afeta todo mundo, menos esses vagabundos lá da cúpula corrupta hipócrita e nojenta, que alimenta a desigualdade e da desigualdade se alimenta. Mantendo essa política perversa, que joga preto contra branco, pobre contra rico e vice-versa. Pra eles isso é jogo, esse é o jogo. Se morre mais um assaltante ou mais um assaltado, tanto faz. Pra eles não importa, gente viva ou gente morta. É tudo a mesma merda. Os velhos nas portas dos hospitais, as crianças mendigando nos sinais. Pra eles nós somos todos iguais: operários e empresários e presidiários e policiais. Nós somos os otários ideais. Enquanto a gente sua e morre, só os bandidos de gravata seguem faturando e descansando em paz. Enquanto esses covardes continuam livres, nós só temos grades. Liberdade já não temos mais!

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